Antes de (re)ver um filme, dá uma olhada aqui!

Sabe aqueles filmes de ontem e anteontem que você viu e já esqueceu ou nunca viu, mas tem certeza que sim? Então! Dá uma olhada nestes aqui. Quem sabe ajudamos você a relembrar algumas cenas, elementos curiosos que aparecem nas imagens, ou mesmo, dizer algo que você realmente não viu. E, se não incluímos um detalhe, que você acha importante, comente e enriqueça as análises. Divirta-se!

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quarta-feira, 17 de março de 2010

O Fugitivo (1993), de Andrew Davis


UM BRINDE AO DIA DE HOJE, OU MELHOR, UM FILME AO DIA DE ST. PATRICK!


Um médico renomado é acusado de matar sua mulher Helen Kimble (Sela Ward). A única pista que ele tem sobre o verdadeiro assassino é um braço mecânico, pois os dois lutaram em sua casa mas o criminoso conseguiu fugir. Após não conseguir provar sua inocência o dr. Richard Kimble (Harrison Ford), suspeito por ser o único beneficiário do seguro de vida de Helen é levado a julgamento. É condenado à pena de morte, pois é mostrada uma prova em que Helen ao ligar para a polícia diz que tem alguém tentando matá-la e ele ainda está em sua casa. Além disso, quando a policial, ao telefone, pergunta quem quer matá-la, Helen repete, por duas vezes o nome do marido, Richard.

Sabemos desde sempre que o acusado não é o verdadeiro assassino e isso é fundamental para a trama, pois ficamos torcendo do começo ao fim que dr. Kimble consiga provar sua inocência. Os primeiros 15 minutos causam um certo incômodo e frustração. Faz com que o espectador fique inquieto e, ao mesmo tempo, impotente, pois deve acompanhar os fatos passivamente sem poder auxiliar o personagem na busca da verdade que somente o dr. Kimble, sua mulher e nós espectadores sabemos. É, de qualquer forma, um privilégio nosso obter as informações, porém teremos como "castigo" compartilhar a angústia do dr. Kimble.

Ao ser levado à prisão alguns presos que estão junto a ele em um ônibus provocam um acidente. Alguns morrem, outros conseguem escapar, como dr. Kimble.

A partir daí inicia-se um thriller emocionante, pois ao mesmo tempo em que o protagonista foge e tentará encontrar o criminoso, a polícia está em seu encalço e, se depender do agente Samuel Gerard (Tommy Lee Jones) o fugitivo não irá muito longe. Além disso, é repleto de surpresas e reviravoltas que servem de fio condutor para o próximo passo.

Após uma pausa na perseguição frenética ao dr. Kimble inicia-se um jogo tenso onde o médico necessita continuar escondido e, paralelamente, provar sua inocência.

A trama se passa em Chicago e, em algumas passagens do filme é mostrada a comemoração do dia de São Patrício (St. Patrick´s Day) padroeiro de todos os santos na Irlanda. Além de desfiles e comemorações por diversas partes do mundo, há alguns símbolos como o trevo de três folhas (simbolizando a Santíssima Trindade) e a cor verde. Reparem que bela imagem o rio Chicago tingido de verde em comemoração ao santo, é rápida, mas muito interessante. Há outras referências em relação às comemorações no filme, como uma das diversas perseguições do agente Gerard a Kimble no meio de um desfile.

Para quem gosta de surpresas como prato principal e pitadas de suspense, abra uma Guinness (cerveja tipicamente irlandesa) como acompanhamento para relaxar e se preparar para 130 minutos de tensão. (Re)veja O Fugitivo e, se quiser abra outra Guinness para dormir. Afinal, amanhã o dia não será mais verde.

terça-feira, 16 de março de 2010

Kagemusha - A Sombra do Samurai (1980), de Akira Kurosawa


A história se passa no ano de 1573. Kagemusha (Tatsuya Nakadai) é um ladrão que cometeu pequenos delitos, mas foi condenado à pena de crucificação. Por sorte, o irmão de um dos mais importantes senhores feudais Shingen Takeda (Tatsuya Nakadai) reconheceu no bandido uma inacreditável semelhança física com seu irmão.

Por conta disto, livrou o bandido da pena em troca de poder substituir Shingen caso este não pudesse aparecer em público por alguma razão ou mesmo falecesse.

Em determinado momento da trama, Shingen é atingido com um tiro, mas antes de morrer pede aos seus subordinados que coloquem em seu lugar Kagemusha, por três anos, a fim de se estruturarem e não perderem o poder, pois ao saberem que o guerreiro havia morrido, uma batalha entre os clãs seria inevitável.

A mensagem principal que o filme transmite é de como, aos poucos, um bandido vai se transformando em um homem honrado e altruísta. Não chega a ser um herói, mas começa a perceber que a vida lhe deu um novo recomeço e ele pode aproveitar aquilo.

Na primeira cena, vemos o irmão de Shingen, Nobukado Takeda (Tsutomu Yamazaki) numa sala convencendo o guerreiro de que aquele bandido servirá de sósia. Reparem que, a todo instante há apenas uma sombra na sala e esta posiciona-se fixamente atrás de Shingen.
Francis Ford Coppola e George Lucas apoiaram o projeto de Akira Kurosawa neste filme. Tendo esta informação em mãos, reparem a semelhança entre algumas cenas de guerra de Kagemusha e a cena de guerra no filme Dracula (1992) de Coppola. Vemos um belíssimo efeito de uma espécie de teatro de sombras em que aparecem apenas a silhueta negra dos combatentes sob um céu avermelhado. Em Dracula há clara referência ao diretor Akira Kurosawa. Já em Kagemusha, há novamente outro modo de referenciar a sombra. É muito bonito.
A partir do momento em que Kagemusha assume o lugar do falecido senhor Feudal Shingen começa um jogo de suspense durante boa parte do filme, pois a todo instante em que o bandido é exposto como Shingen ocorrem fatos que põem em xeque a autenticidade da figura. E, a cada nova situação, caímos na mesma armadilha e ficamos apreensivos em acreditar que, desta vez, não há mais como esconder a morte do guerreiro feudal.

O trabalho de figurino é muito bem feito. A qualidade visual das vestimentas na tela é impecável.

Akira Kurosawa mostra de forma primorosa uma sequência onírica de Kagemusha. Parece um quadro vivo, uma pintura. Ou em outro momento quando há um arco-íris na praia. Percebe-se claramente a artificialidade, o anti-naturalismo e o exagero do fenômeno natural, mas aí é que está a mágica. Ao vermos esta imagem temos a oportunidade de apreciar, quase em transe, um efeito belíssimo que se fosse congelado por alguns segundos não faria mal à narrativa e muito menos aos olhos.

Além da beleza estética, é muito bom (re)ver Kagemusha e (re)descobrir o personagem como um ser humano tendo a oportunidade de mudar sua vida, escolher fazer nascer ou renascer sua hombridade e o sentimento de fazer parte de algo importante e ver renascer o sentimento de amor pelo próximo e ter pelo que lutar arrisacando sua vida, pois após perder tudo o que lhe foi dado só resta dar sua vida por aquilo, como um último e glorioso suspiro.

Entre Dois Amores (1985), de Sydney Pollack




Karen Blixen foi uma escritora dinamarquesa do séc. XX. Escreveu, entre outros livros, sua passagem pelo continente africano, mais especificamente no Quênia. E é sobre este livro e este período de sua vida que o filme trata.

É uma história que envolve conquistas, amores, decepções, mas fundamentalmente, vontade de seguir em frente e lutar pelos seus ideais.

Karen (Meryl Streep) é uma mulher separada e, por punição da sociedade se vê obrigada a não ter novos pretendentes, apenas alguns amantes. De família rica e bem relacionada, acaba se envolvendo com dois irmãos gêmeos que ostentam o título de Barão, apesar de estarem quebrados financeiramente. À negativa de um dos irmãos Bror Blixen (Klaus Maria Brandauer) de assumir Karen como namorada/esposa, ela propõe ao outro irmão, Hans, que aproveitem a oportunidade de explorar as terras de colônias britânicas no Quênia. Ela entraria com o dinheiro e Hans com o título de Barão. Ele aceita e os dois partem para à África com o intuito de criar gado em uma fazenda.

Como o casamento foi de conveniência para os dois, Hans não vê porque ficar ao lado da esposa com frequência e muito menos ajudá-la na administração da fazenda que, inclusive, sem consultar Karen, ele mudou os planos de criação de gado para plantação de café. Após este primeiro atrito, Hans com muita mais frequência faz viagens longas pelo continente, a fim de caçar e afastar-se de Karen. Ela, por sua vez, deixa crescer um carinho enorme pelo marido o que não é suficiente para que ele se sensibilize e esteja mais presente na fazenda e no Quênia.
Neste meio tempo, Karen conhece Denys Finch e ao passar dos anos eles começam a se envolver, mas sempre com muito respeito, afinal, ela é casada. Quando Karen e Hans decidem se separar, Karen se entrega a Finch e os dois têm uma relação de intensa paixão, porém, ele também tem o costume de viajar pelo continente por conta de caçadas e negócios.
Apesar da situação parecer ser fora dos padrões, ainda mais se levarmos em conta à época da história, há no filme uma clara relação de respeito e tentativa de viver uma vida em busca da felicidade por parte de Karen, Han e Denys, o que torna a história mais interessante e encantadora.

Ele é sutil, em todos os aspectos. Há uma cena, muito sensual por sinal, em que Finch lava os cabelos de Karen. Observem o prazer no rosto dos dois e, no final, a espuma branca escorrendo entre os personagens. É de encher os olhos.

Além disso, é um filme para se apreciar e utiliza de cenário imagens belíssimas e paisagens quase infinitas, como um trem muito distante, finíssimo, cortando o campo árido entre as montanhas. É lindo, além de acalmar os olhos e o coração. Ou mesmo, as cenas em que o avião aparece, aliás objeto fundamental para a história.

Os filmes, necessariamente tem um cuidado e uma preocupação com as combinações de cores, as derivações de cores que guiará as técnicas aplicadas desde o figurino, composição dos cenários e das locações externas até a escolha das lentes a serem utilizadas nas câmeras de filmagem.
Em Entre Dois Amores podemos perceber como esta técnica é utilizada com o predomínio e alternância de cores utilizadas em duas espécies de camuflagem. As utilizadas pelo exército em áreas de deserto e outras em áreas de mata. Como nas imagens abaixo, percebam como há forte predominância destas derivações.






A história como um todo é triste, mas agarra o espectador muito pelo trabalho primoroso dos atores e, principalmente de Meryl Streep que faz o espectador se emocionar durante boa parte das cenas, mas uma em especial a ser destacada ocorre quando Karen conversa com o novo governador. É de dar nó na garganta, pois anteriormente vimos um acidente terrível na fazenda e a protagonista se vê obrigada a deixar o Quênia, mas está preocupada com o que ocorrerá com as famílias que vivem em seu território.

É uma grande lição de vida, aprendizado, tenacidade e vontade de viver que a história nos deixa.
Além disso, tem um trabalho artístico fantástico e faz com que as imagens fiquem em nossas memórias por um longo tempo.

No final do filme, sabemos que Karen Blixen escreveu sua primeira história em 1934 sob o pseudônimo de Isak Dinesen e, após deixar o Quênia, nunca mais voltou ao continente africano.

Para nossa sorte, podemos voltar quando quisermos às belas imagens e à boa história contada por ela e interpretada pelo excelente diretor Sydney Pollack (A Intérprete, 2005), a fim de rememorar a beleza que Blixen experimentou e pôde compartilhar com o mundo.

Disque M Para Matar (1954), de Alfred Hitchcock


Margot (Grace Kelly) tem um amante chamado Mark Halliday (Robert Cummings) que está de volta à cidade. Na época em que se conheceram, ela não vivia um bom momento em seu casamento com o ex-tenista Tony Wendice (Ray Milland). Mas, ao se encontrarem no apartamento de Margot, ela diz a Mark que está tudo bem em seu relacionamento com o marido e pretende romper com o amante. Eles se beijam, como um último momento daquela relação.

De repente, ouvimos um barulho na porta de entrada. Sabemos que é o marido. Mas, Margot já havia avisado Tony que um amigo a visitaria em sua casa. Esta cena é belíssima e sutil. Quando Tony está para entrar vemos as sombras do casal refletidas na porta se separando, pois cada um vai para um lado e, no meio das sombras vemos o marido entre elas.

Prestem muita atenção em dois momentos fundamentais no início da trama. Na história contada por Margot a Mark sobre a chantagem sofrida por ela e sobre a forma de pagamento. E, na conversa entre Taylor e o Capitão Lesgate (Anthony Dawson), desde o telefonema até o capitão sair do apartamento do tenista. É brilhante a forma como Lesgate é envolvido no plano de Taylor. E, nesta última sequência, observem como Hitchcock aparece de forma inusitada.

O roteiro, a respeito do jogo de tênis, parece sempre arremessar a culpa ou a intenção de cometer o crime para o outro e, quem recebe, tenta devolver o problema de volta. Reparem como Taylor induz Mark (escritor de histórias policiais) a dizer como seria uma história policial em que ocorresse um crime perfeito. É curioso notar como, ao mesmo tempo, o personagem explica as ações fundamentais do plano do tenista e quais elementos deve-se conter em um filme como o que estamos assistindo.

Quando ocorre a cena de assassinato temos a impressão de que o filme chegara ao seu fim. O que Hitchcock consegue atingir neste ponto é quase um clímax no meio do filme ou dois filmes dentro de um só. Primeiro o assassinato de Margot, depois o que ocorrerá com Taylor, o mandante do crime. Acontece que, não seria Hitchcock se não houvesse surpresas e reviravoltas na trama. É surpreendente o que ocorre a partir do momento em que Margot atende ao telefone.

Outra técnica do diretor utilizada de forma precisa é o fato de nos antecipar o que vem a seguir, fazendo com que o espectador tenha a impressão de chegar a conclusões antes de serem confirmadas. Por exemplo, quando o inspetor Hubbard (John Williams) pede que Mark escreva em um papel o endereço do hotel em que está para poder interrogá-lo em breve. Ao fazer isto, Hitchcock aproxima a câmera e dá destaque às mãos e ao ato de escrever do amante fazendo com que deduzíssemos que Hubbard iria associar a letra de Mark à carta encontrada no bolso do criminoso e descobrindo que Mark era o amante de Margot.

Ao juntar as peças e deduzir o que ocorreu Hubbard narra, passo-a-passo, como o crime foi arquitetado por Taylor e, à medida em que, o inspetor descreve o que vem a seguir e as atitudes se confirmam há uma intensa apreensão e ansiedade, tornando o suspense cada vez mais acentuado, pois temos a impressão de que algo sairá do previsto e nova reviravolta ocorrerá.
(Re)ver este filme com o olhar voltado à trama carregada de surpresas e suspense é enriquecedor e se puder agregar a isso como se a história fosse uma partida de tênis poderá ser duplamente surpreendente.

Tratando-se de duplas interpretações, percebam o filme como Margot e Mark vs. Taylor e Lesgate, tendo como juiz o inspetor Hubbard. É incrível. É Hitchcock.

Planeta dos Macacos (1968), de Franklin J. Schaffner



Um grupo de cientistas viaja pelo espaço. Faltando seis meses para voltarem à Terra já há uma diferença de 700 anos, pois viajam à velocidade da luz. O último dos astronautas acordado, George Taylor (Charlton Heston) entra em seu casulo de hibernação para dormir até o fim da viagem. Ao aterrisarem, ocorrem alguns acidentes dentro da nave e no pouso.

Eles estão no meio de um lago e começam a afundar. Escapam e, após observarem ao redor acreditam estar em outro planeta, como informado no painel da nave, no ano de 3978 (2310 anos à frente de seu tempo).

Ao caminharem por uma área desértica e rochosa, os astronautas/cientistas, avistam uma pequena planta. E o que eles fazem? Arrancam a solitária para futuras análises, pois ficam felizes em descobrir vida ali. Pois é! Até comentam, logo adiante, se aquela planta está (estava) ali é porque deve existir mais vida por perto. Ok. Mas, e se não encontrassem mais nada?

Este ato simbólico merece destaque, pois o filme irá tratar da questão "homem ser um parasita do local em que vive e se auto destruir"; não estar preocupado em coexistir e, na maioria das vezes, guerrear para tentar solucionar incompatibilidades.

Ressalva. É bom lembrarmos que, na década de 1960, estava em voga, entre outras questões, a Guerra Fria e o cuidado com o meio ambiente. Portanto, é natural que o filme tratasse e fizesse críticas sobre estes assuntos.

Após andarem por um longo trecho, os astronautas Taylor, Landon (Robert Gunner) e Dodge (Jeff Burton) descobrem humanos no lugar. A partir daí, macacos com aspectos humanos (falam, andam de forma ereta, utilizam armas de fogo, sabem andar a cavalo etc.) vão à caça das pessoas que ali estão, inclusive dos forasteiros. Alguns são capturados, outros morrem, levam tiros de raspão. Os prisioneiros são levados à cidade dos macacos e são postos em jaulas.

É impressionante a perfeição da maquiagem e "figurino" dos macacos. Para a época, principalmente, beira à perfeição. E, hoje, ao revermos este filme, nos deparamos com algo muito verossímil, apesar de já estarmos acostumados com os efeitos especiais atuais. Já se foram mais de 40 anos e ainda é atual.

A princípio, apenas um dos astronautas sobrevive à caçada, mas leva um tiro de raspão no pescoço e perde a voz.

O roteiro é bem elaborado, mas poderiam ter encontrado uma forma melhor de fazer com que o protagonista ficasse incapaz de se comunicar. Isto incomoda um pouco nas vezes em que vemos o esforço dele em tentar falar com os macacos. Mas, tente não pensar ou resistir a isso. Deixe a trama lhe conduzir, sem muitos questionamentos de verossimilhança narrativa.

Com essa perda de voz, torna-se angustiante o fato de não sabermos se, e quando, o astronauta irá se comunicar de forma plena. A trama vai nos causando ansiedade, à medida em que a comunicação entre eles avança. Quando, finalmente, ele consegue falar, dá um berro, um grito de alívio e xinga os macacos.

Neste momento, parece que queremos compartilhar aquela explosão contida, na torcida que o homem pudesse mostrar quem ele realmente para aquele bando de macacos imundos, como o próprio protagonista diz. Afinal, são os humanos que evoluíram dos macacos e não o contrário (mas o filme questiona que tipo de evolução é esta onde há auto destruição).

Para quem gosta de perseguições típicas de gato e rato, o filme proporciona isto. Metade dele se dedica a esta situação. Torcemos para que Taylor escape, consiga salvar sua pele e provar que pode ter um diálogo racional com os macacos. As perseguições são emocionantes e sempre tensas.

Outro aspecto a perceber são as belas imagens. Ao contrário das filmagens em vídeo, a película tem por natureza, a impressão de profundidade nos ambientes. Utilizando-se disto, vale a pena prestar um pouco mais de atenção às tomadas externas. Vejam como isto se amplia, na parte final do filme, quando os personagens estão na "Zona Proibida". São imagens belíssimas, amplas, dedicadas especialmente a nos mostrar a beleza das locações.

Por conta da boa construção narrativa e da preocupação estética, o filme flui rapidamente e, ao chegar ao fim, percebemos que a história está apenas começando. Vemos o desespero de Taylor quando da sua descoberta nos fornecendo elementos para uma continuação.

Queremos saber mais e como aquilo irá se resolver. Mas o filme acaba nisto, de forma brilhante, deixando o espectador angustiado à espera da continuação que se daria em "De Volta ao Planeta dos Macacos" (1970), de Ted Post.

(Re)veja este filme e reparem que muito do que nos é mostrado e abordado, há mais de 40 anos, continua sendo atual, emocionante e intrigante.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Anna e O Rei (1999), de Andy Tennant

Se você já viu o filme O Rei e Eu (1956), de Walter Lang poderá ter certa resistência em relação a esta refilmagem, pois a história é muito semelhante e as situações idem. Porém deixe com que este filme te leve para dentro dele, pois se tentar encaixar um filme no outro você se arriscará a travar uma batalha que não compensa e perderá o que tem de mais encantador no filme de 1999, as diferenças.

O propósito aqui não é fazer comparações entre um e outro, mas em alguns momentos será inevitável pois daremos ao leitor a oportunidade de saber se ele quer diversão ao ver um ou algo mais dramático e sisudo em outro.

Anna é convidada para ministrar aulas, a pedido do Rei, no Sião. Com a promessa de ter uma casa, tipicamente inglesa e fora do palácio, e receber um bom salário a protagonista parte com seu filho para o país oriental. Chegando lá percebe que sua vida não será fácil, pois tanto ela quanto o Rei têm temperamentos difíceis e opiniões opostas em diversos assuntos. Além do que, o choque cultural faz com que a adaptação seja mais dolorosa.

Ocorre que, ao longo do tempo Anna e o Rei vão descobrindo a essência do outro e o que poderia ser o combustível para haver um distanciamento cada vez maior transforma-se numa relação de admiração e amor entre os dois.

Os cenários são grandiosos, luxuosos e naturalista, não dando espaço para ambientes exagerados ou "mágicos". Mas, nem por isso deixam de ser encantadores.

Aqui, diferente do filme de 1956, não é um musical e não foi incluída a sequência magistral da peça de teatro "A Casa do Pai Thomas". Apesar disso, o livro tem relativa importância em um momento do filme, mas não podemos compará-la ao anterior. É cuidadoso, tanto nos diálogos quanto na direção de arte, seus figurinos etc.

Tenso do começo ao fim. Com toques de tristeza, amargura e desilusões. Dá-se atenção maior às histórias menores tornando-o mais denso em relação a O Rei e Eu. Há menos inocência por parte dos personagens, tornando-os mais cruéis ou menos utópicos.

De qualquer forma, ele surpreende fazendo com que o espectador queira descobrir o desfecho das tramas. Tanto é que o final, além de não existir no primeiro, é carregado de suspense e reviravoltas revelando o que cada um dos personagens principais têm de melhor em suas atitudes.
Anna e O Rei e O Rei e Eu são histórias iguais, mas muito diferentes. Resta saber se você, leitor, quer se divertir ou refletir. E nos dois casos, você terá esta chance.

Os Dez Mandamentos (1923), de Cecil B. DeMille





Prepare-se para ver dois belíssimos filmes em um só.

Trata-se da história de Moisés (Theodore Roberts) e dos judeus, a partir do momento em que Deus castiga os egípcios aplicando ao país castigos por ter escravizado o povo de Israel até a elaboração final dos Dez Mandamentos. Ao Moisés receber a ordem de Deus e subir na montanha sagrada descobrimos que uma senhora chamada Martha McTavish (Edythe Chapman), de família humilde, lê esta história bíblica aos seus dois filhos.

A partir deste momento, começa a narração sobre a vida desta família. O irmão mais novo, John (Richard Dix) ignora seguir os 10 Mandamentos de Deus e decide sair de casa. Em uma lanchonete, seu lanche é furtado e ele e seus amigos vão atrás da mulher que saiu correndo com o lanche. Ela, tentando se esconder, entra em uma carpintaria que, na verdade, é a casa da família de John. Ao voltar para casa, ele encontra a garota e decide ficar. Os irmãos se apaixonam por ela, mas quem acaba ficando com a garota é John. Após isto, ele e a garota saem de casa, pois continuam achando que seguir os mandamentos é bobagem.

Três anos depois John enriquece como construtor, mas seu irmão Dan (Rod La Rocque) e sua mãe continuam na mesma situação. John ganha dinheiro fazendo irregularidades nas obras, a fim de obter mais lucro em seu negócio.

Até que um dia, John chama Dan para ser o responsável da carpintaria em uma obra da igreja. Ele aceita mas, percebe que há irregularidades e tentará fazer com que John perceba que aquilo é errado e pare de agir daquele modo em sua vida.

Há diversos outros elementos no filme que tornam a trama mais interessante. Por exemplo, o amor eterno que Dan nutre por Mary Leigh (Leatrice Joy) mulher de John; o destino da mãe dos rapazes ou mesmo o destino de John, Mary e Dan.

Ao comentar sobre o "primeiro filme" reparem como os cenários do Egito são impressionantes, imensos, imponentes. Observam a cena em que Ramsés, o rei do Egito (Charles de Rochefort), aparece sentado no trono e, pela perspectiva da câmera torna-se quase tão grande quanto uma estátua que está ao fundo, distante e, ainda, vemos ao lado do monumento uma pessoa de braços abertos, mínuscula, se comparada à escultura gigante.

O número de figurantes também é outro aspecto a ser notado, pois dá verossimilhança às cenas e enriquece todo o contexto do filme, com suas roupas e movimentos.

Prestem atenção na cena de perseguição dos egípcios ao povo de Israel. Vejam a agilidade e beleza dos cavalos e bigas correndo a uma velocidade surpreendente.

Um efeito especial que se torna encantador ocorre no momento em que o Mar Morto se abre, dando passagem aos judeus e, depois se fecha para aniquilar o exército egípcio que perseguia os primeiros.

No "segundo filme", além do conjunto ser especial, é brilhante a cena em que John segura uma argola de ferro e coloca atrás da cabeça de Dan fazendo alusão a uma auréola e Dan torce a mesma argola transformando-a num 8 - mais precisamente um 8 deitado, o símbolo de infinito -e a põe nos punhos de John fazendo referência a uma algema.

Principalmente, pela segunda parte da história, o filme nos mostra como os 10 Mandamentos podem ser atualizados para o início do século XX e mais, como histórias de desrespeito e falta de fé e amor ao próximo continuam sendo atuais, quase um século depois.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock


Dois homens se conhecem em um trem. Um deles é o famoso tenista Guy Haines (Farley Granger) e o outro um jovem rico Bruno Anthony (Robert Walker). Bruno inicia uma conversa com o tenista e começa a especular sobre os jogos de tênis e a vida amorosa de Guy. Ao convidar o jogador para almoçar em sua cabine, Bruno sugere que eles matem seu pai e a mulher de Haines, porém que troquem de crimes, um mata a pessoa indesejada na vida do outro. Guy se esquiva e não dá muita atenção àquela conversa, afinal ele quer se livrar da mulher que o traiu, mas não a ponto de matá-la. Já Bruno, não suporta o pai e percebe-se querer fazer de tudo para dar fim à vida dele.

Ao chegar em sua cidade natal, Guy encontra sua mulher, os dois discutem. Na saída, ele liga para sua atual namorada, Anne Morton (Ruth Roman), e desabafa dizendo que apertaria o pescoço da, ainda, mulher até matá-la. À noite, o tenista liga para a casa de Bruno externando sua raiva e este entende como um sinal verde para matar a mulher de Guy.

Bruno, então, vai ao encontro da mulher de Haines, Miriam (Kasey Rogers), e a estrangula com as próprias mãos numa ilha dentro de um parque de diversões, chamada Ilha do Amor.

A partir daqui, Guy torna-se o principal suspeito do assassinato e Bruno o persegue na tentativa de que o tenista "cumpra" o combinado e mate o pai de Anthony.

Hitchcock sabia trabalhar o suspense como poucos e isso faz com que o filme seja tenso do início ao fim.

Além disso, o diretor, de forma sutil e por meio de detalhes, nos conduz de forma a fazer com que o espectador participe da trama querendo descobrir o que ocorrerá a seguir e torcer por este ou aquele personagem.

No início do filme vemos apenas dois sapatos na mesma situação, mas em direções opostas. Vemos que duas pessoas estão saindo de um táxi carregando malas. Depois, vão em direção à estação de trem e entram no vagão até os dois se sentarem e um deles, ao cruzar a perna toca o bico do sapato no outro à sua frente. Esta foi a forma magistral que Hitchcock encontrou para que Bruno e Guy iniciacem uma conversa.

Quando Bruno persegue Miriam reparem nos bloqueios que existem entre eles, afinal eles não se conhecem, ela está acompanhada de dois rapazes e ele está tentando de alguma forma uma aproximação a fim de cometer o crime. Reparem que Bruno espera Miriam sair de casa e além da rua que separa os dois, logo em seguida chega um ônibus. Após isto, há um menino no parque que serve como um novo entrave na perseguição.

É quase uma jornada que Bruno enfrenta atrás de Miriam, aumentando nossa ansiedade a cada aproximação. Anthony, começa a segui-la dentro de um ônibus, depois à pé, no carrossel, no barco, enfim, a cada novo meio de aproximação a perseguição torna-se cada vez mais tensa.

Há outra cena brilhante. Miriam já percebe que um homem a olha e a segue e ela até acha graça e simpatiza com a situação. Em determinado momento, Miriam e seus dois colegas estão num brinquedo - em que deve-se bater com um martelo e quem tocar o sinal ganha um brinde. Os dois jogam, mas não ganham a boneca para Miriam. Bruno fica de frente para Miriam, olha para ela, olha para suas mãos (mãos dele) e as esfrega dando sinais de que aquelas mãos serão as responsáveis pela morte da garota. Em relação à atenção dada às mãos de Bruno, reparem em uma cena anterior quando a mãe dele faz suas unhas.

Ao se aproximar cada vez mais de Miriam, Anthony agora está em um barquinho em direção à Ilha do Amor, bem atrás do trio. Vejam, no túnel como mesmo um pouco afastado a sobra de Bruno "engole" a sobra de Miriam. Ao mesmo tempo que é sutil nos mostra claramente que a partir dali é o fim da personagem. E, em contraposição a isto, ao mesmo tempo em que a sombra encontra a de Miriam ela diz aos amigos que estão rindo e brincando no barco á frente: "Pare, pare com isso. O que você está fazendo. Pare!"

Outra sequência angustiante são as cenas paralelas em que Guy joga uma partida de tênis e Bruno tenta pegar o isqueiro de Guy que caiu em um bueiro. Este isqueiro, Guy esqueceu na cabine de Bruno quando almoçaram juntos no trem e, agora, Bruno que colocar o objeto na Ilha onde Miriam foi morta para incriminar Haines, pois no isqueiro há a inicial do nome do tenista e de sua namorada e também duas raquetes cruzadas.

É um thriller eletrizante. Até o último instante, não sabemos realmente quem responderá pelos atos impensados cometidos no início da trama. (Re)ver este filme é tentar antecipar a todo momento a cena seguinte. É (re)ver Hitchcock. E ele, como de costume, está no filme. Basta procurar.