Antes de (re)ver um filme, dá uma olhada aqui!

Sabe aqueles filmes de ontem e anteontem que você viu e já esqueceu ou nunca viu, mas tem certeza que sim? Então! Dá uma olhada nestes aqui. Quem sabe ajudamos você a relembrar algumas cenas, elementos curiosos que aparecem nas imagens, ou mesmo, dizer algo que você realmente não viu. E, se não incluímos um detalhe, que você acha importante, comente e enriqueça as análises. Divirta-se!

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Como Roubar Um Milhão de Dólares (1966), de William Wyler


Bonnet (Hugh Griffith) é um homem milionário e vive numa bela casa com sua filha Nicole, em Paris. Ele, além de rico e bem relacionado, falsifica famosas obras de arte e, tempos depois, as põe à venda em leilão.

Vale ressaltar quão bela é a sala de leilão. Com um vermelho intenso é elegante e, ao mesmo tempo, bem diferente de outras que estamos acostumados a ver em filmes.

Nicole ouve no rádio de seu carro o resultado de uma venda de um quadro de Cèzanne, pintado por seu pai, que foi vendido pelo valor de US$ 500,000. Ela fica furiosa e vai para casa dizer ao seu pai que ele passara dos limites e, se não encerrasse suas atividades ilícitas, ele poderia parar na prisão. Bonnet diz que irá considerar. Esta cena é bem curiosa, pelo fato de o pai ter um esconderijo dentro de um armário. É fantástico.

Logo em seguida, a polícia chega, em diversos carros, motos e até um furgão, na casa de Nicole. Ela fica assustada, pois acredita que descobriram a farsa de seu pai e o levarão preso. Mas, na verdade, Bonnet explica que eles estão ali para levar por empréstimo uma estátua de Vênus, esculpida por Cellini avaliada em US$ 1,000,000 que será exibida no museu Kléber-Laffayette, em Paris.
O problema é que a obra foi esculpida pelo pai de Bonnet e, mais uma vez, ele está numa situação de falsificação. Os policiais levam a estátua para o museu, mas ninguém desconfia da autenticidade da peça.

Dias depois, Nicole está em casa, sozinha e ouve um barulho. Desce as escadas e percebe um invasor em sua sala tentando furtar um quadro, supostamente de Van Gogh. Ela o surpreende e ele pede desculpas, afinal parece ser um ladrão com excelentes modos. Os dois conversam, ele se apresenta como Simon Dermott (Peter O´Toolle). Diz que furta obras de arte de grande valor , sob encomenda, para vender a milionários interessados. Ele a convence em deixá-lo ir embora. De repente, a arma que estava na mão de Nicole dispara e acerta o intruso. Após o susto, ela decide levá-lo à sua casa, que na verdade é o hotel mais caro e luxuoso de Paris, o Ritz. Chegando lá ele dá um beijo em Nicole e pede para que marquem um novo encontro.

Percebam o momento em que Nicole ouve o barulho do invasor. É citado, em outras análises do blog, as diferentes formas em que Alfred Hitchcock aparece em seus filmes. E, não é que, apesar de não ter influência direta neste filme, ele aparece, de uma forma inusitada e engraçada. Cara de Hitchcock, corpo de Hepburn. Divertidíssimo.

Após a estátua estar no museu, chega à casa de Bonnet um senhor da seguradora e pede que o dono da obra assine uns papéis relativos ao seguro da peça. Logo depois de assinar, o corretor diz que será realizado um teste de autenticidade na escultura.

Bonnet se desespera e Nicole também, afinal todos os trambiques serão descobertos. De repente, Nicole lembra-se do ladrão que esteve em sua casa e pedirá a ele que roube a estátua do museu para que seu pai não seja descoberto. Dermott aceita e o plano mirabolante começa a tomar corpo.
Prestem atenção nas roupas e nas jóias de Nicole criadas pelas marcas Givenchy e Cartier, respectivamente. Muito elegantes. Uma das combinações mais marcantes ocorre quando a protagonista encontra-se com Dermott para oferecer-lhe o plano do furto da escultura. Em primeiro lugar, percebam como seus olhos brilham de forma quase tão intensa como seus brincos de brilhante.

Em segundo, no desenho de sua roupa. A protagonista está toda de preto, com uma máscara negra de renda, parecendo fazer referência a dois personagens famosos. Primeiramente à mulher-gato, dos quadrinhos de Batman. E, de forma mais direta, à personagem Frances Stevens (Grace Kelly) no filme Ladrão de Casaca (1955), de Alfred Hitchcock. Este filme também se passa na França e, o mais interessante, é seu nome em inglês "To Catch A Thief", ou seja, em tradução livre, "Para Pegar Um Ladrão". E é exatamente o que Nicole faz.

A execução do plano é muita divertida, repleta de suspense e surpresas. Uma dos personagens mais engraçados do filme surge nesta sequência. O segurança bigodudo (Mustache), além de tomar uns goles de vinho, entre uma ronda e outra, posiciona seu bigode para cima, a fim de demonstrar alegria e para baixo para demonstrar tristeza. Sutil e hilário.
O fim se revela de forma surpreendente, com um desfecho feliz, digno de uma boa comédia hollywoodiana. Aliás, o roteiro é ótimo, de ponta a ponta, e aumenta a curiosidade do espectador conforme a trama avança.

(Re)ver Como Roubar Um Milhão de Dólares é, de certa forma, torcer pelos "bandidos" e dar boas risadas com eles, se deixar levar pela fantasia e personagens caricatos que uma boa história proporciona e deixar de lado, por duas horas, o senso de justiça, em troca de boas risadas. Afinal, em um mundo fantástico como o das telas, podemos nos dar este luxo. A começar por Nicole com seus Givenchy´s e Cartier´s.

Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir


A trama se inicia no ano de 1959 com a chegada de novos alunos em Welton - escola preparatória para o ingresso de alunos em renomadas univesidades americanas - que tem como seu lema: Tradição, Disciplina, Honra e Excelência. Percebe-se, desde o início, a preocupação e cobrança de pais, professores, coordenadores e alunos para que o objetivo e os resultados sejam atinigidos, pois além de ter um alto custo, há em jogo o nome da instituição, por ser a que tem o maior índice de aprovação nos Estados Unidos.

Um ex-aluno de destaque e agora professor, iniciará o curso de poesia. Seu nome? John Keating (Robin Williams) ou, se os alunos preferirem, "O Captain! My Captain!" referindo-se a um poema de Whitman, dedicado a Abraham Lincoln.

A partir daí, veremos que Keating não realizará aulas comuns, mas sim elaborará formas inusitadas e instigantes que façam os alunos aprenderem, sentirem, produzirem sobre poesia e, ao mesmo tempo, se descobrirem e buscarem dentro de si sua verdadeira paixão e vocação profissional, libertando-se do pensamento que deveriam seguir apenas o que seus pais sonham com seus futuros.

Prestem atenção às aulas do prof. Keating. São brilhantes, chacoalham os alunos, quebra paradigmas e conceitos rígidos, ou seja, uma forma nem um pouco ortodóxica de ministrar aulas.

Como exemplo, há uma cena emocionante onde ele pede a seus alunos que, após lerem a introdução de um livro de poesias, rasgue-a. Afinal, o que realmente interessa ali são as poesias em si e não fórmulas matemáticas para saber se um poema é bom ou não.

Com isso, o mestre, utilizando-se da expressão latina carpe diem (colha o dia) a seus alunos, dizendo para tornarem suas vidas extraordinárias, ganha respeito, confiança e admiração deles, a ponto de pesquisarem sobre ele e descobrirem que fazia parte, na época de estudante, de um grupo chamado Sociedade dos Poetas Mortos. Ao ser questionado por alguns alunos, Keating explica que eram reuniões secretas em que alguns alunos de sua época se juntavam para ler poesias, entre outras coisas.

A partir disto, Todd Anderson (Ethan Hawke), Neil Perry (Robert Sean Leonard), Knox Overstreet (Josh Charles), Charlie Dalton (Gale Hansen), Steven Meeks (Allelon Ruggiero), Richard Cameron (Dylan Kussman) e Gerard Pitts (James Waterston) vão até o local das antigas e secretas reuniões para retomar as atividades proibidas.

É interessante poder observar como cada estudante vai, aos poucos, quebrando suas próprias barreiras. Algo até poucos meses inimaginável, agora parece ser fundamental para que eles se sintam vivos e se dediquem mais aos estudos. E também, como a Sociedade vai tomando corpo e modifica positivamente os estudantes, como eles vão se descobrindo.

Prestem atenção em duas histórias. A de Knox Overstreet que se apaixona por uma garota e se descobre capaz de conquistá-la e, também, no personagem Neil Perry que além de ter um pai austero, por diversas vezes, não consegue demonstrar suas vontades e seus pontos de vista entrando sempre em atrito com ele.

Nesta última, Neil quer ser ator e consegue o papel principal na peça Sonhos de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Claro que, o pai ao descobrir vai até a escola ter com o filho e dizer que atuar na peça está fora de questão, pois aquilo desvirtuará os caminhos planejados por ele em relação a Neil.

A partir desta imposição, os fatos seguintes levam a um desfecho emocionante e triste, porém traz consigo uma carga emocional muito forte e especial na vida dos estudantes, do prof. Keating e da própria escola.

O filme é belíssimo, do início ao fim. Tanto a trama, como a beleza das locações. Prestem atenção nas cenas externas, no outono e inverno, ora com as árvores num tom alaranjado pelas suas folhas secas, ora pela imensidão branca que ocupa a área externa do colégio fornecendo dramaticidade essencial à história.

(Re)ver Sociedade dos Poetas Mortos é quase um chamado de descobrimento pessoal. Mostra de que forma as pessoas podem fazer a diferença, influneciam a vida de outros, negativa e positivamente. Mas também, é uma grande lição de auto-estima e perseverança, acreditar em seus objetivos e ter como recompensa o sentimento e reconhecimento de dever cumprido. Como Gandhi disse, certa vez: "Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam e, por fim, você vence."

terça-feira, 23 de março de 2010

Tony Manero (2008), de Pablo Larraín


Raul Peralta (Alfredo Castro), tem 53 anos e é um imitador do personagem Tony Manero - interpretado por John Travolta no filme Os Embalos de Sábado À Noite (1977), de John Badham - que está em seu auge, nos cinemas. A história se passa na década de 1970, no Chile.

Raul se inscreve em um programa de TV a fim de participar de um quadro de imitadores de Tony Manero. Ocorre que, apesar de não ser um grande empecilho, a idade já faz diferença. Além disso, vemos claramente que o protagonista é ou está decadente, pois não sabemos, durante a trama, sobre seu passado.

Ocorre que, apesar de Raul buscar um sonho de se tornar (re)conhecido por suas aptidões artísticas, também não se importa em cometer alguns crimes cruéis, sem propósito, de forma equivocada e absurda para atingi-lo.

Reparem na cena em que o protagonista observa uma senhora ser atacada por três jovens na rua. Ele sai de seu apartamento, em um bairro decadente, vai ao encontro da vítima e a ajuda a levá-la em casa. A partir daí, temos um clima de que algo não acabará bem, mas pela atitude de Raul, em ajudar a pobre senhora, acreditamos que nada sério ocorrerá. Mas, o desfecho da cena não é nem um pouco amigável, pelo contrário, é forte, impactante e tem a intenção, logo no início do filme, em deixar o espectador atônito.

E o filme inteiro é assim. Violento, intrigante, sujo. Não sabemos, ao certo, o rumo da trama e quais outras surpresas ocorrerão.

A época tratada no filme ocorre em um Chile, sob ditadura militar no comando do general Augusto Pinochet. Vemos um país tenso, com o exército fazendo ronda nas ruas e a população privada em diversos aspectos.

Apesar de Raul ter um ar cansado, auto-estima baixa, ser egoísta ao extremo, frustrado, descontrolado, sem dinheiro e viver de favores e trambiques, é cercado por mulheres, também decadentes, mas que veem nele algo que as atrai disputando sua atenção, sexual inclusive (apesar de estar impotente). Ele dá as cartas nos ensaios de dança, maltrata a todos e, mesmo assim, as pessoas que o cercam voltam a quase que implorar sua atenção, numa espécie de bumerangue de maus tratos coordenado por ele.

O filme se destaca pela direção de arte, fotografia, design de produção e muito, pelo excelente trabalho do ator Alfredo Castro que dá um ar quase grotesco ao personagem.

(Re)ver Tony Manero é perceber as formas infinitas de desdobramentos de histórias e personagens que a criatividade humana pode oferecer. Pra melhor ou pior. Basta você julgar, como Raul foi julgado no fim do filme.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Golpe de Mestre (1973), de George Roy Hill


O filme começa com um ragtime (música popular americana na década de 1910) e parece dar ritmo e leveza à trama que se passa em Chicago na década de 1930, mas parece ter sido composta para Golpe de Mestre, pois o filme tem o ritmo da música, é impressionante.

Johnny Hooker (Robert Redford) é um trapaceiro de primeira que comete pequenos golpes e, geralmente, conta com a ajuda de outros da sua estirpe. Apesar disso, está sempre em enrascadas e não tem o dom de administrar seu dinheiro, gastando-o em jogos, bebidas e mulheres. E, apesar das trapaças certeiras de Hooker, ele sempre está em apuros, nos levando ao pensamento de que, agora sim não terá mais como escapar. Este jogo com o espectador será do começo ao fim, levando-nos até o ponto de ficarmos tristes e decepcionados quando ele está num beco sem saída ou há um fato definitivo onde não há mais nada que se possa fazer.

Reparem, numa das primeiras cenas do filme, quando Hooker evita um assalto. É tudo muito rápido e o espectador precisa ficar atento a todos os detalhes, caso contrário, correrá o risco de não entender como toda a cena aconteceu. É divertidíssimo e surpreendente.

O filme é dividido em seis atos: A Armação; A Isca; O Conto; O Telégrafo; A Recusa e O Golpe.

Luther Coleman (Robert Earl Jones) e Hooker cometem um golpe, mas não sabiam que o enganado era um dos capangas do gângster/banqueiro Doyle Lonnegan (Robert Shaw) que carregava consigo o dinheiro do patrão. Após isso, Coleman é assassinado e Johnny é intimado a recuperar o dinheiro pelo corrupto detetive William Snyder (Charles Durning).

Hooker engana Snyder e foge à procura de um velho amigo de Luther, o também trapaceiro Henry Gondorff (Paul Newman). A partir daí, eles tramarão um golpe que, se der certo, garantirá suas aposentadorias.

Na segunda parte (A Isca), fiquem atentos à conversa entre Henry e Johnny em relação ao golpe que cometerão no jogo de pôquer. É antecipada, de forma pontual, as cenas que virão a seguir. O mais interessante é que nem tudo é dito e, por isso, o público é surpreendido com nova continuidade do golpe.

O filme é repleto de sutilezas imagéticas e de interpretação. Por exemplo, quando Hooker está sentado junto à janela de um trem e recebe uma carteira de couro. Percebam as imagens que representam a paisagem de fora. É espetacular, pois elas são em preto e branco. Ou, ainda no trem, quando Johnny mede, de cima a baixo, um dos seguranças que está diante da porta da cabine de Lonnegan. Divertida a cena, pois vemos, apenas os olhos de Hooker, por cima dos ombros do segurança, subindo e descendo.

À medida em que o filme caminha torna-se mais envolvente e carismático. Mas outro fator que desperta um grande interesse, paralelo à história, são as artimanhas utilizadas pelos golpistas, de ponta a ponta na trama. Reparem, atenciosamente, como Lonnegan substitui as cartas do jogo por outras que seu capanga preparou.

Apesar das trapaças, certeiras de Hooker, ele sempre está em apuros e nos faz pensar que da próxima vez ele não irá escapar.

O trabalho de direção de arte e design de produção são magníficos. É muito encantador ver os cenários representando Chicago nos anos de 1930. Os carros, as lanchonetes/restaurantes, as fachadas dos prédios etc.

Outro ponto alto é o figurino. Os homens elegantes trajando terno, chapéu, às vezes smoking. Tudo muito bem cortado, alinhado e desenhado de acordo com as características da época.

O roteiro é brilhante. Tudo se encaixa perfeitamente, do início ao fim. Nada está fora do lugar, tudo é muito claro e certeiro. Tanto é que, o final do filme é arrebatador. Causa furor, espanto mas não frustra ou engana. Afinal está tudo explicado, dito e repetido durante toda a história.

(Re)ver Golpe de Mestre pode tornar-se um vício, pois a cada nova visita, o espectador certamente, descobrirá novos detalhes, sejam eles visuais ou naturais da própria trama. Além do que, é uma excelente aula de como escrever um roteiro preciso.

A Intérprete (2005), de Sydney Pollack


Quando crianças são envolvidas em situações de violência, no cinema, pode ser despertado no espectador diversos sentimentos ruins, como raiva, incômodo, repulsão etc. E, quando vemos menores cometendo atos violentos é igualmente chocante. Parece que tudo está errado mesmo. E, é assim que o filme inicia fazendo com que o público fique atento por todo a trama.

Silvia Broome (Nicole Kidman) é intérprete na ONU há cerca de cinco anos. Em mais um final de expediente, ela lembra ter deixado uma sacola dentro de uma cabine de som. Ao entrar na sala, percebe que há vozes no fone de ouvido e vai conferir. Descobre que estão tramando um assassinato de um líder africano, dr. Zuwanie (Earl Cameron), que poderá ocorrer durante seu discurso na Assembleia Geral do órgão. Sem querer, Silvia, acende a luz da cabine e supõe que, quem tramava o crime poderia tê-la visto. Broome corre e consegue escapar. No dia seguinte, ela conta ao departamento de segurança o que ocorreu.

Durante a trama, o agente do FBI, Tobin Keller (Sean Penn), trabalha para descobrir se Silvia está mentido ou o risco do crime ocorrer é real e, buscando novos elementos sobre a vida da protagonista, percebe que ela poderia ter interesses maiores no caso.

Inicia-se, a partir daí, um thriller emocionante. Ela terá de provar que não há interesses na invenção do fato e deverá ficar alerta em relação à sua segurança, pois os verdadeiros interessados farão o necessário para tirá-la do caminho e concluir o plano.

Reparem na cena em que Silvia está em sua casa tocando flauta e, de repente, o telefone toca. Se você estiver concentrado e conectado com o filme, verá que a situação é assustadora. Nada muito impactante, mas é uma surpresa das boas.

Sean Penn atua de forma muito correta na interpretação de seu papel. Seu personagem cresce a cada cena. Há sempre uma carga emocional em seu personagem. Ou pelo fato de ser um durão agente do FBI ou, principalmente, quando o assunto sobre a morte de sua mulher vem à tona.
Em relação a isso, reparem na preparação para elevar a importância do trauma - que a morte de sua mulher lhe causou - na trama e na construção do personagem. Percebam em primeiro lugar, a história do rio contada por Silvia a Keller. Em segundo, cenas depois, a história e a reação de Keller sobre sua mulher. É de dar nó na garganta.

É muito curioso quando o diretor aparece em seu próprio filme. Atuando como personagem principal, numa pequena cena ou até em uma foto. Não importa. Se a aparição contribui honestamente para a trama, enriquecendo-a, aproveitem. Antes de ver um filme, procurem uma foto do diretor, procurem saber como ele é fisicamente. Com este dado em mãos, talvez você o descubra em algum momento da história. E, o mais divertido é saber que esta situação é mais corriqueira do que se imagina. Para quem desconhece, o diretor Sydney Pollack, em A Intérprete, é Jay Pettigrew, chefe do agente Keller.
Além das surpresas e emoções, não poderia faltar o suspense. E isso o filme distribui do começo ao fim. Observem por exemplo, a sequência no ônibus. Não há como relaxar e pensar que tudo acabará bem.

Em outro momento, percebam que bela preparação de suspense ocorre a partir do momento em que Silvia escreve seu nome no caderno de mortos de seu irmão, depois, em casa, ao arrumar sua bolsa, os cortes rápidos em que são mostradas as fotos de um fotógrafo morto em uma banheira e, logo após, Silvia se preparando para tomar banho e enchendo sua banheira. A trama leva a crer, do mais ingênuo ao mais vigilante dos espectadores, que o destino trágico da personagem está decretado.

O roteiro é muito bem construído e, destina-se ao que se propõe. É um thriller carregado de suspense e leva o público a torcer pelos personagens carismáticos, Silvia e Keller. Vejam como o sussuro, elemento sempre em voga na história, tem sua importância maximizada no clímax, fechando o circuito.

Mas, no fim do filme, o diretor parece nos oferecer, em doses pequenas, o alívio da tensão, a cada nome dos mortos em guerra, que a protagonista lê.
Outro aspecto interessante é observar a ONU e seu interior. Quem teve a oportunidade de visitá-la, poderá relembrar alguns locais, ou mesmo, a situação de ser levado por um guia, como o filme mostra em uma cena. E, quem não conhece, tem em mãos uma bela oportunidade de saber como são alguns dos ambientes da Organização, situada em Nova Iorque e, quem sabe pode servir de incentivo ao planejamento da próxima viagem. Afinal, como alguém já disse, se você quiser se sentir dentro de um filme, vá pra NY. E eu complemento, quer conhecer NY veja alguns filmes.

(Re)ver A Intérprete, nos dá a oportunidade que muitos ainda não tiveram acesso. É um privilégio poder conhecer ou (re)visitar a ONU e, de quebra, rever a cidade de Nova Iorque, mesmo que seja por apenas duas horas, mas, em contrapartida, a apenas um clique no controle remoto.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Barton Fink: Delírios de Hollywood (1991), de Joel Coen




Barton Fink (John Turturro) é um escritor de teatro em ascenção na Broadway na década de 1940. Após sua última peça ser considerada um sucesso pela crítica ele é convidado a escrever em Hollywood. No início Barton reluta, mas decide encarar o desafio e muda-se para Los Angeles.
Ao conversar com o chefão do estúdio Capital Pictures, Jack Lipnick (Michael Lerner), Fink têm de escrever um roteiro sobre um lutador de boxe. Acontece que, não conhecendo absolutamente nada sobre este assunto, o escritor se vê incapaz de iniciar uma história. Isto o angústia e o tempo é muito curto, pois em uma semana ele deverá entregar a ideia principal a Lipnick. Este nome, aliás, em português teria uma tradução mais ou menos como lábios que picotam ou lábios que entalham. Observem o modo de falar do personagem. Parece um telégrafo.
Quem já viu algum filme dos irmãos Coen sabe que há sempre um sujeito esquisitão na trama. E este filme não foge à regra. São pessoas estranhas, com trejeitos nem um pouco normais, mas que nos surpreendem pelas atitudes não condizentes com o visual. Geralmente são inteligentes e astutas, pois têm objetivos concretos, mesmo que passem por percalços durante a trama. Quando você já está certo que o personagem é estúpido ou bobo ele tem atitudes inteligentes.

Após você começar a se convencer que ele é bem esperto, o personagem comete atos muito estúpidos, quase infantis. É uma forma brilhante que os irmão Coen encontraram para que o espectador sempre preste atenção no protagonista a fim de tentar descobrir qual será seu próximo passo. Estúpido ou inteligente? Barton Fink é um destes sujeitos.
O nome tem muito a ver com o personagem. Fink pode-se entender como think, ou seja, pensar/imaginar em inglês.

Prestem atenção no personagem Charles Meadows (John Goodman), vizinho de quarto de Barton. Fundamental na história, segue a mesma linha de comportamento descrita acima.

Percebam como o Hotel Earle, em que Barton se hospeda, é tão esquisito como ele. Exagaerdamente cafona, kitsch e curioso. Mas, ao mesmo tempo, tudo estranhamente combina. É claro notar o belo trabalho de direção de arte em que os ambientes se encaixam no personagem e vice e versa.

O corredor do hotel é algo encantador. Comprido, obscuro e com um ar de assombração. Vemos uma simetria muito bem calculada, complementada pelos pares de sapatos em frente a cada porta dos quartos. Apesar de bem iluminado, chega a dar arrepios e nos faz pensar que algo de errado está para acontecer ali.

Ao chegar no quarto do hotel, Fink olha para a escrivaninha e depara-se com um bloco de papel e um lápis, sem ponta. Os detalhes neste filme é que fazem a diferença. É muito interessante.

Outro aspecto curioso é ver como funciona(va) a indústria de Hollywood em determinado aspecto, como neste caso, na visão de um roteirista - mesmo que haja um certo exagero dos personagens, pois são caricatos e não têm a preocupação em nos mostrar algo próximo à realidade.

Em relação à realidade, não nos é informado de forma clara e direta quando o filme transforma-se em um sonho/pesadelo de Barton, mas certamente quando o presidente do estúdio beija os pés de Fink podem ter certeza que daí em diante o protagonista já está sonhando. A impressão que se dá é a partir do momento em que Audrey Taylor (Judy Davis), mulher e secretária do conceituado roteirista W.P. Mayhew (John Mahoney), amanhece ao lado de Fink podemos, também, considerar como um delírio de Barton.

Há outra dica da fusão entre realidade/não realidade quando Barton lê um trecho da Bíbila. Ao invés de conter os textos naturais ao livro há, em seu lugar, o início do roteiro que Fink escreveu.

Os irmãos Coen adoram colocar em seus filmes algo que chama-se Mc Guffin, ou seja, um objeto que, a princípio parece ter alguma importância para a trama, mas no fim das contas é irrelevante e serve apenas para distrair a atenção do público. Há dois objetos que chamam atenção durante boa parte da história. Um pequeno quadro com a figura de uma mulher, de costas, sentada na praia e um embrulho que Charles entrega a Fink. Descubram, na última cena do filme qual dos dois dois objetos é um McGuffin e qual tem real importância e faça com que percebamos que tudo no filme tem um propósito.








Reparem a semelhança entre o personagem e o cineasta Woddy Allen; não só fisicamente, mas também os papéis que Allen representa nos cinemas. O cabelo desgrenhado, os óculos, as roupas amarfanhadas; Barton é judeu, escreve peças de teatro, cinema e, além disso, é histérico, neurótico, questionador do cotidiano etc. Se puderem, assistam ao filme Noivo Neurótico Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen.

(Re)ver Barton Fink é acompanhar uma história que começa e não termina onde não sabemos o que é sonho e o que é realidade. Enfim, é ver cinema.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Fugitivo (1993), de Andrew Davis


UM BRINDE AO DIA DE HOJE, OU MELHOR, UM FILME AO DIA DE ST. PATRICK!


Um médico renomado é acusado de matar sua mulher Helen Kimble (Sela Ward). A única pista que ele tem sobre o verdadeiro assassino é um braço mecânico, pois os dois lutaram em sua casa mas o criminoso conseguiu fugir. Após não conseguir provar sua inocência o dr. Richard Kimble (Harrison Ford), suspeito por ser o único beneficiário do seguro de vida de Helen é levado a julgamento. É condenado à pena de morte, pois é mostrada uma prova em que Helen ao ligar para a polícia diz que tem alguém tentando matá-la e ele ainda está em sua casa. Além disso, quando a policial, ao telefone, pergunta quem quer matá-la, Helen repete, por duas vezes o nome do marido, Richard.

Sabemos desde sempre que o acusado não é o verdadeiro assassino e isso é fundamental para a trama, pois ficamos torcendo do começo ao fim que dr. Kimble consiga provar sua inocência. Os primeiros 15 minutos causam um certo incômodo e frustração. Faz com que o espectador fique inquieto e, ao mesmo tempo, impotente, pois deve acompanhar os fatos passivamente sem poder auxiliar o personagem na busca da verdade que somente o dr. Kimble, sua mulher e nós espectadores sabemos. É, de qualquer forma, um privilégio nosso obter as informações, porém teremos como "castigo" compartilhar a angústia do dr. Kimble.

Ao ser levado à prisão alguns presos que estão junto a ele em um ônibus provocam um acidente. Alguns morrem, outros conseguem escapar, como dr. Kimble.

A partir daí inicia-se um thriller emocionante, pois ao mesmo tempo em que o protagonista foge e tentará encontrar o criminoso, a polícia está em seu encalço e, se depender do agente Samuel Gerard (Tommy Lee Jones) o fugitivo não irá muito longe. Além disso, é repleto de surpresas e reviravoltas que servem de fio condutor para o próximo passo.

Após uma pausa na perseguição frenética ao dr. Kimble inicia-se um jogo tenso onde o médico necessita continuar escondido e, paralelamente, provar sua inocência.

A trama se passa em Chicago e, em algumas passagens do filme é mostrada a comemoração do dia de São Patrício (St. Patrick´s Day) padroeiro de todos os santos na Irlanda. Além de desfiles e comemorações por diversas partes do mundo, há alguns símbolos como o trevo de três folhas (simbolizando a Santíssima Trindade) e a cor verde. Reparem que bela imagem o rio Chicago tingido de verde em comemoração ao santo, é rápida, mas muito interessante. Há outras referências em relação às comemorações no filme, como uma das diversas perseguições do agente Gerard a Kimble no meio de um desfile.

Para quem gosta de surpresas como prato principal e pitadas de suspense, abra uma Guinness (cerveja tipicamente irlandesa) como acompanhamento para relaxar e se preparar para 130 minutos de tensão. (Re)veja O Fugitivo e, se quiser abra outra Guinness para dormir. Afinal, amanhã o dia não será mais verde.

terça-feira, 16 de março de 2010

Kagemusha - A Sombra do Samurai (1980), de Akira Kurosawa


A história se passa no ano de 1573. Kagemusha (Tatsuya Nakadai) é um ladrão que cometeu pequenos delitos, mas foi condenado à pena de crucificação. Por sorte, o irmão de um dos mais importantes senhores feudais Shingen Takeda (Tatsuya Nakadai) reconheceu no bandido uma inacreditável semelhança física com seu irmão.

Por conta disto, livrou o bandido da pena em troca de poder substituir Shingen caso este não pudesse aparecer em público por alguma razão ou mesmo falecesse.

Em determinado momento da trama, Shingen é atingido com um tiro, mas antes de morrer pede aos seus subordinados que coloquem em seu lugar Kagemusha, por três anos, a fim de se estruturarem e não perderem o poder, pois ao saberem que o guerreiro havia morrido, uma batalha entre os clãs seria inevitável.

A mensagem principal que o filme transmite é de como, aos poucos, um bandido vai se transformando em um homem honrado e altruísta. Não chega a ser um herói, mas começa a perceber que a vida lhe deu um novo recomeço e ele pode aproveitar aquilo.

Na primeira cena, vemos o irmão de Shingen, Nobukado Takeda (Tsutomu Yamazaki) numa sala convencendo o guerreiro de que aquele bandido servirá de sósia. Reparem que, a todo instante há apenas uma sombra na sala e esta posiciona-se fixamente atrás de Shingen.
Francis Ford Coppola e George Lucas apoiaram o projeto de Akira Kurosawa neste filme. Tendo esta informação em mãos, reparem a semelhança entre algumas cenas de guerra de Kagemusha e a cena de guerra no filme Dracula (1992) de Coppola. Vemos um belíssimo efeito de uma espécie de teatro de sombras em que aparecem apenas a silhueta negra dos combatentes sob um céu avermelhado. Em Dracula há clara referência ao diretor Akira Kurosawa. Já em Kagemusha, há novamente outro modo de referenciar a sombra. É muito bonito.
A partir do momento em que Kagemusha assume o lugar do falecido senhor Feudal Shingen começa um jogo de suspense durante boa parte do filme, pois a todo instante em que o bandido é exposto como Shingen ocorrem fatos que põem em xeque a autenticidade da figura. E, a cada nova situação, caímos na mesma armadilha e ficamos apreensivos em acreditar que, desta vez, não há mais como esconder a morte do guerreiro feudal.

O trabalho de figurino é muito bem feito. A qualidade visual das vestimentas na tela é impecável.

Akira Kurosawa mostra de forma primorosa uma sequência onírica de Kagemusha. Parece um quadro vivo, uma pintura. Ou em outro momento quando há um arco-íris na praia. Percebe-se claramente a artificialidade, o anti-naturalismo e o exagero do fenômeno natural, mas aí é que está a mágica. Ao vermos esta imagem temos a oportunidade de apreciar, quase em transe, um efeito belíssimo que se fosse congelado por alguns segundos não faria mal à narrativa e muito menos aos olhos.

Além da beleza estética, é muito bom (re)ver Kagemusha e (re)descobrir o personagem como um ser humano tendo a oportunidade de mudar sua vida, escolher fazer nascer ou renascer sua hombridade e o sentimento de fazer parte de algo importante e ver renascer o sentimento de amor pelo próximo e ter pelo que lutar arrisacando sua vida, pois após perder tudo o que lhe foi dado só resta dar sua vida por aquilo, como um último e glorioso suspiro.