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Antes de (re)ver um filme, dá uma olhada aqui!

Sabe aqueles filmes de ontem e anteontem que você viu e já esqueceu ou nunca viu, mas tem certeza que sim? Então! Dá uma olhada nestes aqui. Quem sabe ajudamos você a relembrar algumas cenas, elementos curiosos que aparecem nas imagens, ou mesmo, dizer algo que você realmente não viu. E, se não incluímos um detalhe, que você acha importante, comente e enriqueça as análises. Divirta-se!

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sexta-feira, 26 de março de 2010

Doutor Jivago (1965), de David Lean


É uma história de guerra civil que gerou a Revolução Russa e na década de 1910. O filme dá atenção não aos combates, que ficam em segundo plano, mas ao fatos que são refletidos e envolvem a sociedade por conta da situação.

Também fala de encontros e desencontros perdas e ganhos e, principalmente, muitas reviravoltas na trama. Quase sempre tristes ou frustrantes.

A história começa com o oficial do exército russo Yevgraf Jivago (Alec Guinness) conversando com uma moça, trabalhadora soviética, pois desconfia que ela possa ser sua sobrinha, filha de Yuri e Lara.

Yuri Jivago (Omar Sharif) perde a mãe logo cedo. Anos depois torna-se médico, casa com Tonya (Gerladine Chaplin) e tem um filho. Reparem a impressionante expressão no olhar do ator. Brilhante (sem trocadilhos).

Lara está prestes a ficar noiva, mas acaba se envolvendo com o burguês Komarovsky (Rod Steiger). Seu namorado acaba se envolvendo com a revolução e some. Lara acaba ajudando, como enfermeira durante a guerra e, é nesta época que conhece Jivago. Eles se apaixonam, mas se envolverão somente tempos depois.

É tão bonito quando o filme começa com "OVERTURE", depois tem "INTERMISSION", ou neste caso, "ENTR´ACTE". Apesar de sabermos que será uma extensa história ele serve como se desse um tempo para o espectador entrar no clima, se aquietar, se acomodar e apreciar o espetáculo que está por vir. Não que não seja bacana quando um filme já começa "com tudo", mas são efeitos diferentes. É como se o filme dissesse, tire um tempo para você e aproveite, sem pressa, o que a obra tem a lhe oferecer.

Dr. Jivago, é para se apreciar. A fotografia é impecável, as locações são belas, as paisagens amplas não tem fim. Fica claro, como a cada cena, o trabalho de fotografia e design de produção são extremamente cuidadosos. Tudo é muito rico.

Outro aspecto que impressiona é a quantidade de figurantes.

Reparem, também, como as cores preto e branco predominam e, às vezes, quando o vermelho estoura no meio das cores apáticas - como se fosse um presságio (sangue) do que estaria por vir - em sequências como a a saída dos trabalhadores, logo no início, nas faixas de protesto ou no restaurante em que Lara janta com Kimarovsky.

As cores mudam, somente, a partir de pouco mais da primeira hora de filme. Deixam de ser preto e branco (roupas e neve) e passam a ter uma cor acinzentada, esverdeada ou bege (cores do exército).

Observem como as duas grandes perdas de Jivago são representadas por folhas caindo, ora em árvores (quando sua mãe morre) ou folhas de girassóis (quando Lara lhe escapa pela primeira vez).

O final é sufocante e angustiante e primorosamente transmite boa parte do sentimento do protaginista ao espectador. Impressionante.

(Re)ver Dr. Jivago é, sem dúvida, apreciar a beleza da vida, compartilhar as dores da guerra e apreciar realmente aquela expressão "essa imagem é de cinema".

quinta-feira, 25 de março de 2010

Instinto Selvagem (1992), de Paul Verhoeven


Escritora milionária é acusada de matar o namorado com um picador de gelo. Tem a seu favor e contra, ter escrito um livro que relata de forma muito próxima o crime. A dúvida é levantada. Será que Catherine Tramell escreveu a história como álibi de seu crime ou alguém leu a história e assassinou o rapaz com o intuito de incriminar a escritora?
À medida em que a investigação avança Catherine se envolve com um dos policiais que a vigia, o detetive Nick Curran, com a intenção de escrever um novo livro baseado na vida dele.

Na primeira imagem do filme temos a impressão de vermos movimentos de corpos nus por trás de um mosaico de vidro. Uma interpretação desta cena inicial é mostrar que a trama será como estas imagens, confusa, sem definições, envolvimento entre pessoas e sexo.

A cena seguinte inicia-se com um casal fazendo sexo e nos leva a crer que é uma continuação, sem desconfigurações, da imagem anterior, agora de forma nítida. Na mesma medida em que é sensual, ela acaba de forma brutal fazendo nosso subconsciente trabalhar arrastando estas imagens por todo o filme e de forma intencional, fazer com que tiremos conclusões precipitadas nos momentos cruciais.

Prestem atenção quão inteligente Catherine é. Suas falas, os jogos de palavras e seu desprendimento de pudor que a ajudam manipular situações e induzem outros a seguir o caminho que ela espera, tanto em afastar a ideia de ser suspeita, como o inverso.

Ao mesmo tempo, observem as atitudes da dra. Beth Garner (Jeanne Tripllehorn). Conforme a trama caminha, ela se torna cada vez mais dúbia e mascarada. Ora sensível e frágil, ora vingativa e ardilosa.

Para quem gosta de perseguição de carros há uma cena em que Catherine dirige seu Lotus e o detetive Nick um daqueles sedãs típicos da polícia, um Plymouth marrom metálico de uma década anterior. Chega a ser inverossímil o motivo da perseguição, pois o policial não é nada discreto no modo de seguir os passos da suspeita, o que provoca nela uma certa ira indo pela estrada de forma inconsequente. De qualquer forma é divertida e causa apreensão, como uma boa perseguição.

O filme tem cenas de erotismo e, por vezes, no limite do pornográfico. Há para todos os gostos. Algumas cenas sensuais, outras quase pornográficas e, uma em especial, quando Nick segura à força a dra. Beth numa cena intensa, quase brutal, instigante, mas muito erótica.

Como um bom suspense, Instinto Selvagem é repleto de armadilhas, mas se o espectador estiver atento e já é treinado para algumas situações de roteiro, não cairá na maioria delas, talvez por serem óbvias demais. Não há surpresas interessantíssimas o que também faz com que os espectador se sinta praticamente como um detetive muito perspicaz, por antever algumas situações e vê-las serem confirmadas adiante.

Não se preocupem com a duplicidade e falta de clareza do desfecho final. Afinal, o filme joga o público, de um lado para o outro, sem pudor. Portanto, se não chegarem a uma conclusão definitiva será natural, após tanta oscilação de fatos o mínimo é que o espectador chegue desorientado no final mesmo.

(Re)ver Intinto Selvagem é arrumar assunto para, no mínimo, uma boa conversa de bar a respeito de quem é a verdadeira culpada, mas principalmente, se as cruzadas de perna e o desfile sem roupas de Sharon Stone são dignos de uma pausa na discussão, para pedir mais um chopp.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Os Doze Condenados (1967), de Robert Aldrich


O major americano Reisman (Lee Marvin), durante a Segunda Guerra Mundial, é convocado por seus superiores a reunir e treinar 12 condenados à morte a fim de fazerem um ataque quase suicida a um castelo na França e matar o maior número possível de alemães.

O filme começa com uma cena de um condenado sendo enforcado por praticar um crime. A partir daí, sabemos que os 12 escolhidos terão o mesmo destino, ou pelo menos, terão a chance de tentar sobreviver na guerra. Apesar de algumas resistências, os escolhidos aceitam arriscar e decidem se submeter ao treinamento. Mas, Reisman avisa de antemão que, se alguém sair da linha, morre. E, se alguém cometer atos não condizentes ao esperado e desestabilizar a ordem, os outros sofrerão as consequências. Portanto, deixa na mão do grupo inteiro a responsabilidade de cuidar de um ou outro que queira subverter a ordem.

Uma curiosidade a parte, os 12 condenados são apresentados ao Major Reisman aos doze minutos de filme.

A direção de arte e o figurino são muito bem feitos e trazem à tela uma verossimilhança bem arquitetada. Prestem atenção aos uniformes, às locações externas e, principalmente, aos prédios e locais do dia-a-dia de treinamento do exército.

O roteiro é focado no treinamento e no detalhamento das histórias dos personagens, muito mais do que simplesmente na guerra em si, ou mesmo, na operação a que eles se destinam. E isto é que faz do filme algo interessante e não apenas aqueles combates, tiros e explosões comuns em filmes deste tipo.

Percebam, por exemplo, a curiosa e inusitada festa que Reisman prepara, em seu alojamento, para os comandados em comemoração ao fim do treinamento. O mais curioso é notar a falta de tato e a timidez dos condenados quando veem adentrar diversas prostitutas prontas para diverti-los. Até o primeiro tomar uma iniciativa, todos ficam ali, imóveis e perplexos, não entendendo muito bem qual deveria ser o próximo passo, até Reisman sair e fechar a porta, deixando-os, como ele mesmo disse, mais à vontade.

A invasão do castelo é repleta de surpresas e carregada de suspense. Dá frio na barriga, cada vez que o major cruza um alemão. Sua sorte é que um dos condenados que ele leva, a tiracolo, o soldado Joseph Wladislaw (Charles Bronson), fala alemão e com isso não levanta suspeitas. Mas, a cada olhar estranho, dentro do castelo, ou uma aproximação de um alemão para falar com os dois, causa um tremor enorme no espectador, pois a qualquer momento eles podem ser descobertos.

Além disso, há outros soldados do lado de fora, entre eles, Vernon Pinkley (Donald Sutherland), que fica de guarda ao lado do carro que está posicionado na entrada do castelo e, por diversas vezes, tem contato com outros soldados alemães, nos levando a pensar que desta vez ele será descoberto.

Após dominarem o château, os alemães correm para se esconder em um abrigo subterrâneo. Ao passo que, quando todos estão lá dentro, Reisman e Wladislaw trancam as duas portas que separam o abrigo do castelo, encurralando-os. Claro que eles ficam desesperados, pois não têm para onde ir e até o reforço chegar, pois o alarme foi disparado, muita coisa pode acontecer. E acontece.

Enquanto alguns dos 12 estão nas entradas do castelo para não deixar que os soldados alemães de reforço entrem e estraguem os planos americanos, outros abrem os respiros do abrigo, jogam granadas, ainda com os pinos e, após isto, despejam gasolina. Ao mesmo tempo, vemos o desespero dos alemães tentando pegar as granadas, mas não conseguem, pois estão presas entre as grades.

Como numa cena esportiva, o soldado Robert Jefferson (Jim Brown) sai correndo e joga uma granada, desta vez sem o pino, em cada buraco de respiro causando assim a explosão cadenciada do castelo e fazendo com que ele imploda, tendo em vista o abrigo ser subterrâneo.

A mensagem principal do filme, é mostrar como um ser humano que cometeu erros no passado, por diversos motivos, mas ao ter uma nova oportunidade e um objetivo de vida pode mudar e respeitar o próximo. Afinal, é sensível perceber a mudança no tratamento e na confiança dos dois lados major e condenados e vice versa.
Vale, também, citar o trabalho de Ernest Borgnine, no papel do General Worden e os nomes dos outros soldados, não citados no texto, aliás entre eles grandes nomes como: Victor Franko (John Cassavetes), Archer Magott (Telly Savallas), Pedro Jimenez (Trini López), Samson Posey (Clint Walker), Milo Vladek (Tom Busby), Glen Gilpin (Ben Carruthers), Roscoe Lever (Stuart Cooper), Seth Sawyer (Colin Maitland) e Tassos Bravos (Al Mancini).

(Re)ver Os Doze Condenados é ter a oportunidade de acompanhar o lado mais humano de episódios tristes como uma guerra, mas além disso, é ter a oportunidade de conhecer - para quem gostou de Bastardos Inglórios (2009) - um dos filmes que, certamente, tiveram grande influência nas escolhas do diretor Quentin Tarantino mostrando que os clássicos estão mais latentes do que nunca.

Como Roubar Um Milhão de Dólares (1966), de William Wyler


Bonnet (Hugh Griffith) é um homem milionário e vive numa bela casa com sua filha Nicole, em Paris. Ele, além de rico e bem relacionado, falsifica famosas obras de arte e, tempos depois, as põe à venda em leilão.

Vale ressaltar quão bela é a sala de leilão. Com um vermelho intenso é elegante e, ao mesmo tempo, bem diferente de outras que estamos acostumados a ver em filmes.

Nicole ouve no rádio de seu carro o resultado de uma venda de um quadro de Cèzanne, pintado por seu pai, que foi vendido pelo valor de US$ 500,000. Ela fica furiosa e vai para casa dizer ao seu pai que ele passara dos limites e, se não encerrasse suas atividades ilícitas, ele poderia parar na prisão. Bonnet diz que irá considerar. Esta cena é bem curiosa, pelo fato de o pai ter um esconderijo dentro de um armário. É fantástico.

Logo em seguida, a polícia chega, em diversos carros, motos e até um furgão, na casa de Nicole. Ela fica assustada, pois acredita que descobriram a farsa de seu pai e o levarão preso. Mas, na verdade, Bonnet explica que eles estão ali para levar por empréstimo uma estátua de Vênus, esculpida por Cellini avaliada em US$ 1,000,000 que será exibida no museu Kléber-Laffayette, em Paris.
O problema é que a obra foi esculpida pelo pai de Bonnet e, mais uma vez, ele está numa situação de falsificação. Os policiais levam a estátua para o museu, mas ninguém desconfia da autenticidade da peça.

Dias depois, Nicole está em casa, sozinha e ouve um barulho. Desce as escadas e percebe um invasor em sua sala tentando furtar um quadro, supostamente de Van Gogh. Ela o surpreende e ele pede desculpas, afinal parece ser um ladrão com excelentes modos. Os dois conversam, ele se apresenta como Simon Dermott (PeterToolle). Diz que furta obras de arte de grande valor , sob encomenda, para vender a milionários interessados. Ele a convence em deixá-lo ir embora. De repente, a arma que estava na mão de Nicole dispara e acerta o intruso. Após o susto, ela decide levá-lo à sua casa, que na verdade é o hotel mais caro e luxuoso de Paris, o Ritz. Chegando lá ele dá um beijo em Nicole e pede para que marquem um novo encontro.

Percebam o momento em que Nicole ouve o barulho do invasor. É citado, em outras análises do blog, as diferentes formas em que Alfred Hitchcock aparece em seus filmes. E, não é que, apesar de não ter influência direta neste filme, ele aparece, de uma forma inusitada e engraçada. Cara de Hitchcock, corpo de Hepburn. Divertidíssimo.

Após a estátua estar no museu, chega à casa de Bonnet um senhor da seguradora e pede que o dono da obra assine uns papéis relativos ao seguro da peça. Logo depois de assinar, o corretor diz que será realizado um teste de autenticidade na escultura.

Bonnet se desespera e Nicole também, afinal todos os trambiques serão descobertos. De repente, Nicole lembra-se do ladrão que esteve em sua casa e pedirá a ele que roube a estátua do museu para que seu pai não seja descoberto. Dermott aceita e o plano mirabolante começa a tomar corpo.
Prestem atenção nas roupas e nas jóias de Nicole criadas pelas marcas Givenchy e Cartier, respectivamente. Muito elegantes. Uma das combinações mais marcantes ocorre quando a protagonista encontra-se com Dermott para oferecer-lhe o plano do furto da escultura. Em primeiro lugar, percebam como seus olhos brilham de forma quase tão intensa como seus brincos de brilhante.

Em segundo, no desenho de sua roupa. A protagonista está toda de preto, com uma máscara negra de renda, parecendo fazer referência a dois personagens famosos. Primeiramente à mulher-gato, dos quadrinhos de Batman. E, de forma mais direta, à personagem Frances Stevens (Grace Kelly) no filme Ladrão de Casaca (1955), de Alfred Hitchcock. Este filme também se passa na França e, o mais interessante, é seu nome em inglês "To Catch A Thief", ou seja, em tradução livre, "Para Pegar Um Ladrão". E é exatamente o que Nicole faz.

A execução do plano é muita divertida, repleta de suspense e surpresas. Uma dos personagens mais engraçados do filme surge nesta sequência. O segurança bigodudo (Mustache), além de tomar uns goles de vinho, entre uma ronda e outra, posiciona seu bigode para cima, a fim de demonstrar alegria e para baixo para demonstrar tristeza. Sutil e hilário.
O fim se revela de forma surpreendente, com um desfecho feliz, digno de uma boa comédia hollywoodiana. Aliás, o roteiro é ótimo, de ponta a ponta, e aumenta a curiosidade do espectador conforme a trama avança.

(Re)ver Como Roubar Um Milhão de Dólares é, de certa forma, torcer pelos "bandidos" e dar boas risadas com eles, se deixar levar pela fantasia e personagens caricatos que uma boa história proporciona e deixar de lado, por duas horas, o senso de justiça, em troca de boas risadas. Afinal, em um mundo fantástico como o das telas, podemos nos dar este luxo. A começar por Nicole com seus Givenchy´s e Cartier´s.

Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir


A trama se inicia no ano de 1959 com a chegada de novos alunos em Welton - escola preparatória para o ingresso de alunos em renomadas univesidades americanas - que tem como seu lema: Tradição, Disciplina, Honra e Excelência. Percebe-se, desde o início, a preocupação e cobrança de pais, professores, coordenadores e alunos para que o objetivo e os resultados sejam atinigidos, pois além de ter um alto custo, há em jogo o nome da instituição, por ser a que tem o maior índice de aprovação nos Estados Unidos.

Um ex-aluno de destaque e agora professor, iniciará o curso de poesia. Seu nome? John Keating (Robin Williams) ou, se os alunos preferirem, "O Captain! My Captain!" referindo-se a um poema de Whitman, dedicado a Abraham Lincoln.

A partir daí, veremos que Keating não realizará aulas comuns, mas sim elaborará formas inusitadas e instigantes que façam os alunos aprenderem, sentirem, produzirem sobre poesia e, ao mesmo tempo, se descobrirem e buscarem dentro de si sua verdadeira paixão e vocação profissional, libertando-se do pensamento que deveriam seguir apenas o que seus pais sonham com seus futuros.

Prestem atenção às aulas do prof. Keating. São brilhantes, chacoalham os alunos, quebra paradigmas e conceitos rígidos, ou seja, uma forma nem um pouco ortodóxica de ministrar aulas.

Como exemplo, há uma cena emocionante onde ele pede a seus alunos que, após lerem a introdução de um livro de poesias, rasgue-a. Afinal, o que realmente interessa ali são as poesias em si e não fórmulas matemáticas para saber se um poema é bom ou não.

Com isso, o mestre, utilizando-se da expressão latina carpe diem (colha o dia) a seus alunos, dizendo para tornarem suas vidas extraordinárias, ganha respeito, confiança e admiração deles, a ponto de pesquisarem sobre ele e descobrirem que fazia parte, na época de estudante, de um grupo chamado Sociedade dos Poetas Mortos. Ao ser questionado por alguns alunos, Keating explica que eram reuniões secretas em que alguns alunos de sua época se juntavam para ler poesias, entre outras coisas.

A partir disto, Todd Anderson (Ethan Hawke), Neil Perry (Robert Sean Leonard), Knox Overstreet (Josh Charles), Charlie Dalton (Gale Hansen), Steven Meeks (Allelon Ruggiero), Richard Cameron (Dylan Kussman) e Gerard Pitts (James Waterston) vão até o local das antigas e secretas reuniões para retomar as atividades proibidas.

É interessante poder observar como cada estudante vai, aos poucos, quebrando suas próprias barreiras. Algo até poucos meses inimaginável, agora parece ser fundamental para que eles se sintam vivos e se dediquem mais aos estudos. E também, como a Sociedade vai tomando corpo e modifica positivamente os estudantes, como eles vão se descobrindo.

Prestem atenção em duas histórias. A de Knox Overstreet que se apaixona por uma garota e se descobre capaz de conquistá-la e, também, no personagem Neil Perry que além de ter um pai austero, por diversas vezes, não consegue demonstrar suas vontades e seus pontos de vista entrando sempre em atrito com ele.

Nesta última, Neil quer ser ator e consegue o papel principal na peça Sonhos de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Claro que, o pai ao descobrir vai até a escola ter com o filho e dizer que atuar na peça está fora de questão, pois aquilo desvirtuará os caminhos planejados por ele em relação a Neil.

A partir desta imposição, os fatos seguintes levam a um desfecho emocionante e triste, porém traz consigo uma carga emocional muito forte e especial na vida dos estudantes, do prof. Keating e da própria escola.

O filme é belíssimo, do início ao fim. Tanto a trama, como a beleza das locações. Prestem atenção nas cenas externas, no outono e inverno, ora com as árvores num tom alaranjado pelas suas folhas secas, ora pela imensidão branca que ocupa a área externa do colégio fornecendo dramaticidade essencial à história.

(Re)ver Sociedade dos Poetas Mortos é quase um chamado de descobrimento pessoal. Mostra de que forma as pessoas podem fazer a diferença, influneciam a vida de outros, negativa e positivamente. Mas também, é uma grande lição de auto-estima e perseverança, acreditar em seus objetivos e ter como recompensa o sentimento e reconhecimento de dever cumprido. Como Gandhi disse, certa vez: "Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam e, por fim, você vence."

terça-feira, 23 de março de 2010

Tony Manero (2008), de Pablo Larraín


Raul Peralta (Alfredo Castro), tem 53 anos e é um imitador do personagem Tony Manero - interpretado por John Travolta no filme Os Embalos de Sábado À Noite (1977), de John Badham - que está em seu auge, nos cinemas. A história se passa na década de 1970, no Chile.

Raul se inscreve em um programa de TV a fim de participar de um quadro de imitadores de Tony Manero. Ocorre que, apesar de não ser um grande empecilho, a idade já faz diferença. Além disso, vemos claramente que o protagonista é ou está decadente, pois não sabemos, durante a trama, sobre seu passado.

Ocorre que, apesar de Raul buscar um sonho de se tornar (re)conhecido por suas aptidões artísticas, também não se importa em cometer alguns crimes cruéis, sem propósito, de forma equivocada e absurda para atingi-lo.

Reparem na cena em que o protagonista observa uma senhora ser atacada por três jovens na rua. Ele sai de seu apartamento, em um bairro decadente, vai ao encontro da vítima e a ajuda a levá-la em casa. A partir daí, temos um clima de que algo não acabará bem, mas pela atitude de Raul, em ajudar a pobre senhora, acreditamos que nada sério ocorrerá. Mas, o desfecho da cena não é nem um pouco amigável, pelo contrário, é forte, impactante e tem a intenção, logo no início do filme, em deixar o espectador atônito.

E o filme inteiro é assim. Violento, intrigante, sujo. Não sabemos, ao certo, o rumo da trama e quais outras surpresas ocorrerão.

A época tratada no filme ocorre em um Chile, sob ditadura militar no comando do general Augusto Pinochet. Vemos um país tenso, com o exército fazendo ronda nas ruas e a população privada em diversos aspectos.

Apesar de Raul ter um ar cansado, auto-estima baixa, ser egoísta ao extremo, frustrado, descontrolado, sem dinheiro e viver de favores e trambiques, é cercado por mulheres, também decadentes, mas que veem nele algo que as atrai disputando sua atenção, sexual inclusive (apesar de estar impotente). Ele dá as cartas nos ensaios de dança, maltrata a todos e, mesmo assim, as pessoas que o cercam voltam a quase que implorar sua atenção, numa espécie de bumerangue de maus tratos coordenado por ele.

O filme se destaca pela direção de arte, fotografia, design de produção e muito, pelo excelente trabalho do ator Alfredo Castro que dá um ar quase grotesco ao personagem.

(Re)ver Tony Manero é perceber as formas infinitas de desdobramentos de histórias e personagens que a criatividade humana pode oferecer. Pra melhor ou pior. Basta você julgar, como Raul foi julgado no fim do filme.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Golpe de Mestre (1973), de George Roy Hill


O filme começa com um ragtime (música popular americana na década de 1910) e parece dar ritmo e leveza à trama que se passa em Chicago na década de 1930, mas parece ter sido composta para Golpe de Mestre, pois o filme tem o ritmo da música, é impressionante.

Johnny Hooker (Robert Redford) é um trapaceiro de primeira que comete pequenos golpes e, geralmente, conta com a ajuda de outros da sua estirpe. Apesar disso, está sempre em enrascadas e não tem o dom de administrar seu dinheiro, gastando-o em jogos, bebidas e mulheres. E, apesar das trapaças certeiras de Hooker, ele sempre está em apuros, nos levando ao pensamento de que, agora sim não terá mais como escapar. Este jogo com o espectador será do começo ao fim, levando-nos até o ponto de ficarmos tristes e decepcionados quando ele está num beco sem saída ou há um fato definitivo onde não há mais nada que se possa fazer.

Reparem, numa das primeiras cenas do filme, quando Hooker evita um assalto. É tudo muito rápido e o espectador precisa ficar atento a todos os detalhes, caso contrário, correrá o risco de não entender como toda a cena aconteceu. É divertidíssimo e surpreendente.

O filme é dividido em seis atos: A Armação; A Isca; O Conto; O Telégrafo; A Recusa e O Golpe.

Luther Coleman (Robert Earl Jones) e Hooker cometem um golpe, mas não sabiam que o enganado era um dos capangas do gângster/banqueiro Doyle Lonnegan (Robert Shaw) que carregava consigo o dinheiro do patrão. Após isso, Coleman é assassinado e Johnny é intimado a recuperar o dinheiro pelo corrupto detetive William Snyder (Charles Durning).

Hooker engana Snyder e foge à procura de um velho amigo de Luther, o também trapaceiro Henry Gondorff (Paul Newman). A partir daí, eles tramarão um golpe que, se der certo, garantirá suas aposentadorias.

Na segunda parte (A Isca), fiquem atentos à conversa entre Henry e Johnny em relação ao golpe que cometerão no jogo de pôquer. É antecipada, de forma pontual, as cenas que virão a seguir. O mais interessante é que nem tudo é dito e, por isso, o público é surpreendido com nova continuidade do golpe.

O filme é repleto de sutilezas imagéticas e de interpretação. Por exemplo, quando Hooker está sentado junto à janela de um trem e recebe uma carteira de couro. Percebam as imagens que representam a paisagem de fora. É espetacular, pois elas são em preto e branco. Ou, ainda no trem, quando Johnny mede, de cima a baixo, um dos seguranças que está diante da porta da cabine de Lonnegan. Divertida a cena, pois vemos, apenas os olhos de Hooker, por cima dos ombros do segurança, subindo e descendo.

À medida em que o filme caminha torna-se mais envolvente e carismático. Mas outro fator que desperta um grande interesse, paralelo à história, são as artimanhas utilizadas pelos golpistas, de ponta a ponta na trama. Reparem, atenciosamente, como Lonnegan substitui as cartas do jogo por outras que seu capanga preparou.

Apesar das trapaças, certeiras de Hooker, ele sempre está em apuros e nos faz pensar que da próxima vez ele não irá escapar.

O trabalho de direção de arte e design de produção são magníficos. É muito encantador ver os cenários representando Chicago nos anos de 1930. Os carros, as lanchonetes/restaurantes, as fachadas dos prédios etc.

Outro ponto alto é o figurino. Os homens elegantes trajando terno, chapéu, às vezes smoking. Tudo muito bem cortado, alinhado e desenhado de acordo com as características da época.

O roteiro é brilhante. Tudo se encaixa perfeitamente, do início ao fim. Nada está fora do lugar, tudo é muito claro e certeiro. Tanto é que, o final do filme é arrebatador. Causa furor, espanto mas não frustra ou engana. Afinal está tudo explicado, dito e repetido durante toda a história.

(Re)ver Golpe de Mestre pode tornar-se um vício, pois a cada nova visita, o espectador certamente, descobrirá novos detalhes, sejam eles visuais ou naturais da própria trama. Além do que, é uma excelente aula de como escrever um roteiro preciso.

A Intérprete (2005), de Sydney Pollack


Quando crianças são envolvidas em situações de violência, no cinema, pode ser despertado no espectador diversos sentimentos ruins, como raiva, incômodo, repulsão etc. E, quando vemos menores cometendo atos violentos é igualmente chocante. Parece que tudo está errado mesmo. E, é assim que o filme inicia fazendo com que o público fique atento por todo a trama.

Silvia Broome (Nicole Kidman) é intérprete na ONU há cerca de cinco anos. Em mais um final de expediente, ela lembra ter deixado uma sacola dentro de uma cabine de som. Ao entrar na sala, percebe que há vozes no fone de ouvido e vai conferir. Descobre que estão tramando um assassinato de um líder africano, dr. Zuwanie (Earl Cameron), que poderá ocorrer durante seu discurso na Assembleia Geral do órgão. Sem querer, Silvia, acende a luz da cabine e supõe que, quem tramava o crime poderia tê-la visto. Broome corre e consegue escapar. No dia seguinte, ela conta ao departamento de segurança o que ocorreu.

Durante a trama, o agente do FBI, Tobin Keller (Sean Penn), trabalha para descobrir se Silvia está mentido ou o risco do crime ocorrer é real e, buscando novos elementos sobre a vida da protagonista, percebe que ela poderia ter interesses maiores no caso.

Inicia-se, a partir daí, um thriller emocionante. Ela terá de provar que não há interesses na invenção do fato e deverá ficar alerta em relação à sua segurança, pois os verdadeiros interessados farão o necessário para tirá-la do caminho e concluir o plano.

Reparem na cena em que Silvia está em sua casa tocando flauta e, de repente, o telefone toca. Se você estiver concentrado e conectado com o filme, verá que a situação é assustadora. Nada muito impactante, mas é uma surpresa das boas.

Sean Penn atua de forma muito correta na interpretação de seu papel. Seu personagem cresce a cada cena. Há sempre uma carga emocional em seu personagem. Ou pelo fato de ser um durão agente do FBI ou, principalmente, quando o assunto sobre a morte de sua mulher vem à tona.
Em relação a isso, reparem na preparação para elevar a importância do trauma - que a morte de sua mulher lhe causou - na trama e na construção do personagem. Percebam em primeiro lugar, a história do rio contada por Silvia a Keller. Em segundo, cenas depois, a história e a reação de Keller sobre sua mulher. É de dar nó na garganta.

É muito curioso quando o diretor aparece em seu próprio filme. Atuando como personagem principal, numa pequena cena ou até em uma foto. Não importa. Se a aparição contribui honestamente para a trama, enriquecendo-a, aproveitem. Antes de ver um filme, procurem uma foto do diretor, procurem saber como ele é fisicamente. Com este dado em mãos, talvez você o descubra em algum momento da história. E, o mais divertido é saber que esta situação é mais corriqueira do que se imagina. Para quem desconhece, o diretor Sydney Pollack, em A Intérprete, é Jay Pettigrew, chefe do agente Keller.
Além das surpresas e emoções, não poderia faltar o suspense. E isso o filme distribui do começo ao fim. Observem por exemplo, a sequência no ônibus. Não há como relaxar e pensar que tudo acabará bem.

Em outro momento, percebam que bela preparação de suspense ocorre a partir do momento em que Silvia escreve seu nome no caderno de mortos de seu irmão, depois, em casa, ao arrumar sua bolsa, os cortes rápidos em que são mostradas as fotos de um fotógrafo morto em uma banheira e, logo após, Silvia se preparando para tomar banho e enchendo sua banheira. A trama leva a crer, do mais ingênuo ao mais vigilante dos espectadores, que o destino trágico da personagem está decretado.

O roteiro é muito bem construído e, destina-se ao que se propõe. É um thriller carregado de suspense e leva o público a torcer pelos personagens carismáticos, Silvia e Keller. Vejam como o sussuro, elemento sempre em voga na história, tem sua importância maximizada no clímax, fechando o circuito.

Mas, no fim do filme, o diretor parece nos oferecer, em doses pequenas, o alívio da tensão, a cada nome dos mortos em guerra, que a protagonista lê.
Outro aspecto interessante é observar a ONU e seu interior. Quem teve a oportunidade de visitá-la, poderá relembrar alguns locais, ou mesmo, a situação de ser levado por um guia, como o filme mostra em uma cena. E, quem não conhece, tem em mãos uma bela oportunidade de saber como são alguns dos ambientes da Organização, situada em Nova Iorque e, quem sabe pode servir de incentivo ao planejamento da próxima viagem. Afinal, como alguém já disse, se você quiser se sentir dentro de um filme, vá pra NY. E eu complemento, quer conhecer NY veja alguns filmes.

(Re)ver A Intérprete, nos dá a oportunidade que muitos ainda não tiveram acesso. É um privilégio poder conhecer ou (re)visitar a ONU e, de quebra, rever a cidade de Nova Iorque, mesmo que seja por apenas duas horas, mas, em contrapartida, a apenas um clique no controle remoto.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Barton Fink: Delírios de Hollywood (1991), de Joel Coen




Barton Fink (John Turturro) é um escritor de teatro em ascenção na Broadway na década de 1940. Após sua última peça ser considerada um sucesso pela crítica ele é convidado a escrever em Hollywood. No início Barton reluta, mas decide encarar o desafio e muda-se para Los Angeles.
Ao conversar com o chefão do estúdio Capital Pictures, Jack Lipnick (Michael Lerner), Fink têm de escrever um roteiro sobre um lutador de boxe. Acontece que, não conhecendo absolutamente nada sobre este assunto, o escritor se vê incapaz de iniciar uma história. Isto o angústia e o tempo é muito curto, pois em uma semana ele deverá entregar a ideia principal a Lipnick. Este nome, aliás, em português teria uma tradução mais ou menos como lábios que picotam ou lábios que entalham. Observem o modo de falar do personagem. Parece um telégrafo.
Quem já viu algum filme dos irmãos Coen sabe que há sempre um sujeito esquisitão na trama. E este filme não foge à regra. São pessoas estranhas, com trejeitos nem um pouco normais, mas que nos surpreendem pelas atitudes não condizentes com o visual. Geralmente são inteligentes e astutas, pois têm objetivos concretos, mesmo que passem por percalços durante a trama. Quando você já está certo que o personagem é estúpido ou bobo ele tem atitudes inteligentes.

Após você começar a se convencer que ele é bem esperto, o personagem comete atos muito estúpidos, quase infantis. É uma forma brilhante que os irmão Coen encontraram para que o espectador sempre preste atenção no protagonista a fim de tentar descobrir qual será seu próximo passo. Estúpido ou inteligente? Barton Fink é um destes sujeitos.
O nome tem muito a ver com o personagem. Fink pode-se entender como think, ou seja, pensar/imaginar em inglês.

Prestem atenção no personagem Charles Meadows (John Goodman), vizinho de quarto de Barton. Fundamental na história, segue a mesma linha de comportamento descrita acima.

Percebam como o Hotel Earle, em que Barton se hospeda, é tão esquisito como ele. Exagaerdamente cafona, kitsch e curioso. Mas, ao mesmo tempo, tudo estranhamente combina. É claro notar o belo trabalho de direção de arte em que os ambientes se encaixam no personagem e vice e versa.

O corredor do hotel é algo encantador. Comprido, obscuro e com um ar de assombração. Vemos uma simetria muito bem calculada, complementada pelos pares de sapatos em frente a cada porta dos quartos. Apesar de bem iluminado, chega a dar arrepios e nos faz pensar que algo de errado está para acontecer ali.

Ao chegar no quarto do hotel, Fink olha para a escrivaninha e depara-se com um bloco de papel e um lápis, sem ponta. Os detalhes neste filme é que fazem a diferença. É muito interessante.

Outro aspecto curioso é ver como funciona(va) a indústria de Hollywood em determinado aspecto, como neste caso, na visão de um roteirista - mesmo que haja um certo exagero dos personagens, pois são caricatos e não têm a preocupação em nos mostrar algo próximo à realidade.

Em relação à realidade, não nos é informado de forma clara e direta quando o filme transforma-se em um sonho/pesadelo de Barton, mas certamente quando o presidente do estúdio beija os pés de Fink podem ter certeza que daí em diante o protagonista já está sonhando. A impressão que se dá é a partir do momento em que Audrey Taylor (Judy Davis), mulher e secretária do conceituado roteirista W.P. Mayhew (John Mahoney), amanhece ao lado de Fink podemos, também, considerar como um delírio de Barton.

Há outra dica da fusão entre realidade/não realidade quando Barton lê um trecho da Bíbila. Ao invés de conter os textos naturais ao livro há, em seu lugar, o início do roteiro que Fink escreveu.

Os irmãos Coen adoram colocar em seus filmes algo que chama-se Mc Guffin, ou seja, um objeto que, a princípio parece ter alguma importância para a trama, mas no fim das contas é irrelevante e serve apenas para distrair a atenção do público. Há dois objetos que chamam atenção durante boa parte da história. Um pequeno quadro com a figura de uma mulher, de costas, sentada na praia e um embrulho que Charles entrega a Fink. Descubram, na última cena do filme qual dos dois dois objetos é um McGuffin e qual tem real importância e faça com que percebamos que tudo no filme tem um propósito.








Reparem a semelhança entre o personagem e o cineasta Woddy Allen; não só fisicamente, mas também os papéis que Allen representa nos cinemas. O cabelo desgrenhado, os óculos, as roupas amarfanhadas; Barton é judeu, escreve peças de teatro, cinema e, além disso, é histérico, neurótico, questionador do cotidiano etc. Se puderem, assistam ao filme Noivo Neurótico Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen.

(Re)ver Barton Fink é acompanhar uma história que começa e não termina onde não sabemos o que é sonho e o que é realidade. Enfim, é ver cinema.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Fugitivo (1993), de Andrew Davis


UM BRINDE AO DIA DE HOJE, OU MELHOR, UM FILME AO DIA DE ST. PATRICK!


Um médico renomado é acusado de matar sua mulher Helen Kimble (Sela Ward). A única pista que ele tem sobre o verdadeiro assassino é um braço mecânico, pois os dois lutaram em sua casa mas o criminoso conseguiu fugir. Após não conseguir provar sua inocência o dr. Richard Kimble (Harrison Ford), suspeito por ser o único beneficiário do seguro de vida de Helen é levado a julgamento. É condenado à pena de morte, pois é mostrada uma prova em que Helen ao ligar para a polícia diz que tem alguém tentando matá-la e ele ainda está em sua casa. Além disso, quando a policial, ao telefone, pergunta quem quer matá-la, Helen repete, por duas vezes o nome do marido, Richard.

Sabemos desde sempre que o acusado não é o verdadeiro assassino e isso é fundamental para a trama, pois ficamos torcendo do começo ao fim que dr. Kimble consiga provar sua inocência. Os primeiros 15 minutos causam um certo incômodo e frustração. Faz com que o espectador fique inquieto e, ao mesmo tempo, impotente, pois deve acompanhar os fatos passivamente sem poder auxiliar o personagem na busca da verdade que somente o dr. Kimble, sua mulher e nós espectadores sabemos. É, de qualquer forma, um privilégio nosso obter as informações, porém teremos como "castigo" compartilhar a angústia do dr. Kimble.

Ao ser levado à prisão alguns presos que estão junto a ele em um ônibus provocam um acidente. Alguns morrem, outros conseguem escapar, como dr. Kimble.

A partir daí inicia-se um thriller emocionante, pois ao mesmo tempo em que o protagonista foge e tentará encontrar o criminoso, a polícia está em seu encalço e, se depender do agente Samuel Gerard (Tommy Lee Jones) o fugitivo não irá muito longe. Além disso, é repleto de surpresas e reviravoltas que servem de fio condutor para o próximo passo.

Após uma pausa na perseguição frenética ao dr. Kimble inicia-se um jogo tenso onde o médico necessita continuar escondido e, paralelamente, provar sua inocência.

A trama se passa em Chicago e, em algumas passagens do filme é mostrada a comemoração do dia de São Patrício (St. Patrick´s Day) padroeiro de todos os santos na Irlanda. Além de desfiles e comemorações por diversas partes do mundo, há alguns símbolos como o trevo de três folhas (simbolizando a Santíssima Trindade) e a cor verde. Reparem que bela imagem o rio Chicago tingido de verde em comemoração ao santo, é rápida, mas muito interessante. Há outras referências em relação às comemorações no filme, como uma das diversas perseguições do agente Gerard a Kimble no meio de um desfile.

Para quem gosta de surpresas como prato principal e pitadas de suspense, abra uma Guinness (cerveja tipicamente irlandesa) como acompanhamento para relaxar e se preparar para 130 minutos de tensão. (Re)veja O Fugitivo e, se quiser abra outra Guinness para dormir. Afinal, amanhã o dia não será mais verde.

terça-feira, 16 de março de 2010

Kagemusha - A Sombra do Samurai (1980), de Akira Kurosawa


A história se passa no ano de 1573. Kagemusha (Tatsuya Nakadai) é um ladrão que cometeu pequenos delitos, mas foi condenado à pena de crucificação. Por sorte, o irmão de um dos mais importantes senhores feudais Shingen Takeda (Tatsuya Nakadai) reconheceu no bandido uma inacreditável semelhança física com seu irmão.

Por conta disto, livrou o bandido da pena em troca de poder substituir Shingen caso este não pudesse aparecer em público por alguma razão ou mesmo falecesse.

Em determinado momento da trama, Shingen é atingido com um tiro, mas antes de morrer pede aos seus subordinados que coloquem em seu lugar Kagemusha, por três anos, a fim de se estruturarem e não perderem o poder, pois ao saberem que o guerreiro havia morrido, uma batalha entre os clãs seria inevitável.

A mensagem principal que o filme transmite é de como, aos poucos, um bandido vai se transformando em um homem honrado e altruísta. Não chega a ser um herói, mas começa a perceber que a vida lhe deu um novo recomeço e ele pode aproveitar aquilo.

Na primeira cena, vemos o irmão de Shingen, Nobukado Takeda (Tsutomu Yamazaki) numa sala convencendo o guerreiro de que aquele bandido servirá de sósia. Reparem que, a todo instante há apenas uma sombra na sala e esta posiciona-se fixamente atrás de Shingen.
Francis Ford Coppola e George Lucas apoiaram o projeto de Akira Kurosawa neste filme. Tendo esta informação em mãos, reparem a semelhança entre algumas cenas de guerra de Kagemusha e a cena de guerra no filme Dracula (1992) de Coppola. Vemos um belíssimo efeito de uma espécie de teatro de sombras em que aparecem apenas a silhueta negra dos combatentes sob um céu avermelhado. Em Dracula há clara referência ao diretor Akira Kurosawa. Já em Kagemusha, há novamente outro modo de referenciar a sombra. É muito bonito.
A partir do momento em que Kagemusha assume o lugar do falecido senhor Feudal Shingen começa um jogo de suspense durante boa parte do filme, pois a todo instante em que o bandido é exposto como Shingen ocorrem fatos que põem em xeque a autenticidade da figura. E, a cada nova situação, caímos na mesma armadilha e ficamos apreensivos em acreditar que, desta vez, não há mais como esconder a morte do guerreiro feudal.

O trabalho de figurino é muito bem feito. A qualidade visual das vestimentas na tela é impecável.

Akira Kurosawa mostra de forma primorosa uma sequência onírica de Kagemusha. Parece um quadro vivo, uma pintura. Ou em outro momento quando há um arco-íris na praia. Percebe-se claramente a artificialidade, o anti-naturalismo e o exagero do fenômeno natural, mas aí é que está a mágica. Ao vermos esta imagem temos a oportunidade de apreciar, quase em transe, um efeito belíssimo que se fosse congelado por alguns segundos não faria mal à narrativa e muito menos aos olhos.

Além da beleza estética, é muito bom (re)ver Kagemusha e (re)descobrir o personagem como um ser humano tendo a oportunidade de mudar sua vida, escolher fazer nascer ou renascer sua hombridade e o sentimento de fazer parte de algo importante e ver renascer o sentimento de amor pelo próximo e ter pelo que lutar arrisacando sua vida, pois após perder tudo o que lhe foi dado só resta dar sua vida por aquilo, como um último e glorioso suspiro.

Entre Dois Amores (1985), de Sydney Pollack




Karen Blixen foi uma escritora dinamarquesa do séc. XX. Escreveu, entre outros livros, sua passagem pelo continente africano, mais especificamente no Quênia. E é sobre este livro e este período de sua vida que o filme trata.

É uma história que envolve conquistas, amores, decepções, mas fundamentalmente, vontade de seguir em frente e lutar pelos seus ideais.

Karen (Meryl Streep) é uma mulher separada e, por punição da sociedade se vê obrigada a não ter novos pretendentes, apenas alguns amantes. De família rica e bem relacionada, acaba se envolvendo com dois irmãos gêmeos que ostentam o título de Barão, apesar de estarem quebrados financeiramente. À negativa de um dos irmãos Bror Blixen (Klaus Maria Brandauer) de assumir Karen como namorada/esposa, ela propõe ao outro irmão, Hans, que aproveitem a oportunidade de explorar as terras de colônias britânicas no Quênia. Ela entraria com o dinheiro e Hans com o título de Barão. Ele aceita e os dois partem para à África com o intuito de criar gado em uma fazenda.

Como o casamento foi de conveniência para os dois, Hans não vê porque ficar ao lado da esposa com frequência e muito menos ajudá-la na administração da fazenda que, inclusive, sem consultar Karen, ele mudou os planos de criação de gado para plantação de café. Após este primeiro atrito, Hans com muita mais frequência faz viagens longas pelo continente, a fim de caçar e afastar-se de Karen. Ela, por sua vez, deixa crescer um carinho enorme pelo marido o que não é suficiente para que ele se sensibilize e esteja mais presente na fazenda e no Quênia.
Neste meio tempo, Karen conhece Denys Finch e ao passar dos anos eles começam a se envolver, mas sempre com muito respeito, afinal, ela é casada. Quando Karen e Hans decidem se separar, Karen se entrega a Finch e os dois têm uma relação de intensa paixão, porém, ele também tem o costume de viajar pelo continente por conta de caçadas e negócios.
Apesar da situação parecer ser fora dos padrões, ainda mais se levarmos em conta à época da história, há no filme uma clara relação de respeito e tentativa de viver uma vida em busca da felicidade por parte de Karen, Han e Denys, o que torna a história mais interessante e encantadora.

Ele é sutil, em todos os aspectos. Há uma cena, muito sensual por sinal, em que Finch lava os cabelos de Karen. Observem o prazer no rosto dos dois e, no final, a espuma branca escorrendo entre os personagens. É de encher os olhos.

Além disso, é um filme para se apreciar e utiliza de cenário imagens belíssimas e paisagens quase infinitas, como um trem muito distante, finíssimo, cortando o campo árido entre as montanhas. É lindo, além de acalmar os olhos e o coração. Ou mesmo, as cenas em que o avião aparece, aliás objeto fundamental para a história.

Os filmes, necessariamente tem um cuidado e uma preocupação com as combinações de cores, as derivações de cores que guiará as técnicas aplicadas desde o figurino, composição dos cenários e das locações externas até a escolha das lentes a serem utilizadas nas câmeras de filmagem.
Em Entre Dois Amores podemos perceber como esta técnica é utilizada com o predomínio e alternância de cores utilizadas em duas espécies de camuflagem. As utilizadas pelo exército em áreas de deserto e outras em áreas de mata. Como nas imagens abaixo, percebam como há forte predominância destas derivações.






A história como um todo é triste, mas agarra o espectador muito pelo trabalho primoroso dos atores e, principalmente de Meryl Streep que faz o espectador se emocionar durante boa parte das cenas, mas uma em especial a ser destacada ocorre quando Karen conversa com o novo governador. É de dar nó na garganta, pois anteriormente vimos um acidente terrível na fazenda e a protagonista se vê obrigada a deixar o Quênia, mas está preocupada com o que ocorrerá com as famílias que vivem em seu território.

É uma grande lição de vida, aprendizado, tenacidade e vontade de viver que a história nos deixa.
Além disso, tem um trabalho artístico fantástico e faz com que as imagens fiquem em nossas memórias por um longo tempo.

No final do filme, sabemos que Karen Blixen escreveu sua primeira história em 1934 sob o pseudônimo de Isak Dinesen e, após deixar o Quênia, nunca mais voltou ao continente africano.

Para nossa sorte, podemos voltar quando quisermos às belas imagens e à boa história contada por ela e interpretada pelo excelente diretor Sydney Pollack (A Intérprete, 2005), a fim de rememorar a beleza que Blixen experimentou e pôde compartilhar com o mundo.

Disque M Para Matar (1954), de Alfred Hitchcock


Margot (Grace Kelly) tem um amante chamado Mark Halliday (Robert Cummings) que está de volta à cidade. Na época em que se conheceram, ela não vivia um bom momento em seu casamento com o ex-tenista Tony Wendice (Ray Milland). Mas, ao se encontrarem no apartamento de Margot, ela diz a Mark que está tudo bem em seu relacionamento com o marido e pretende romper com o amante. Eles se beijam, como um último momento daquela relação.

De repente, ouvimos um barulho na porta de entrada. Sabemos que é o marido. Mas, Margot já havia avisado Tony que um amigo a visitaria em sua casa. Esta cena é belíssima e sutil. Quando Tony está para entrar vemos as sombras do casal refletidas na porta se separando, pois cada um vai para um lado e, no meio das sombras vemos o marido entre elas.

Prestem muita atenção em dois momentos fundamentais no início da trama. Na história contada por Margot a Mark sobre a chantagem sofrida por ela e sobre a forma de pagamento. E, na conversa entre Taylor e o Capitão Lesgate (Anthony Dawson), desde o telefonema até o capitão sair do apartamento do tenista. É brilhante a forma como Lesgate é envolvido no plano de Taylor. E, nesta última sequência, observem como Hitchcock aparece de forma inusitada.

O roteiro, a respeito do jogo de tênis, parece sempre arremessar a culpa ou a intenção de cometer o crime para o outro e, quem recebe, tenta devolver o problema de volta. Reparem como Taylor induz Mark (escritor de histórias policiais) a dizer como seria uma história policial em que ocorresse um crime perfeito. É curioso notar como, ao mesmo tempo, o personagem explica as ações fundamentais do plano do tenista e quais elementos deve-se conter em um filme como o que estamos assistindo.

Quando ocorre a cena de assassinato temos a impressão de que o filme chegara ao seu fim. O que Hitchcock consegue atingir neste ponto é quase um clímax no meio do filme ou dois filmes dentro de um só. Primeiro o assassinato de Margot, depois o que ocorrerá com Taylor, o mandante do crime. Acontece que, não seria Hitchcock se não houvesse surpresas e reviravoltas na trama. É surpreendente o que ocorre a partir do momento em que Margot atende ao telefone.

Outra técnica do diretor utilizada de forma precisa é o fato de nos antecipar o que vem a seguir, fazendo com que o espectador tenha a impressão de chegar a conclusões antes de serem confirmadas. Por exemplo, quando o inspetor Hubbard (John Williams) pede que Mark escreva em um papel o endereço do hotel em que está para poder interrogá-lo em breve. Ao fazer isto, Hitchcock aproxima a câmera e dá destaque às mãos e ao ato de escrever do amante fazendo com que deduzíssemos que Hubbard iria associar a letra de Mark à carta encontrada no bolso do criminoso e descobrindo que Mark era o amante de Margot.

Ao juntar as peças e deduzir o que ocorreu Hubbard narra, passo-a-passo, como o crime foi arquitetado por Taylor e, à medida em que, o inspetor descreve o que vem a seguir e as atitudes se confirmam há uma intensa apreensão e ansiedade, tornando o suspense cada vez mais acentuado, pois temos a impressão de que algo sairá do previsto e nova reviravolta ocorrerá.
(Re)ver este filme com o olhar voltado à trama carregada de surpresas e suspense é enriquecedor e se puder agregar a isso como se a história fosse uma partida de tênis poderá ser duplamente surpreendente.

Tratando-se de duplas interpretações, percebam o filme como Margot e Mark vs. Taylor e Lesgate, tendo como juiz o inspetor Hubbard. É incrível. É Hitchcock.

Planeta dos Macacos (1968), de Franklin J. Schaffner



Um grupo de cientistas viaja pelo espaço. Faltando seis meses para voltarem à Terra já há uma diferença de 700 anos, pois viajam à velocidade da luz. O último dos astronautas acordado, George Taylor (Charlton Heston) entra em seu casulo de hibernação para dormir até o fim da viagem. Ao aterrisarem, ocorrem alguns acidentes dentro da nave e no pouso.

Eles estão no meio de um lago e começam a afundar. Escapam e, após observarem ao redor acreditam estar em outro planeta, como informado no painel da nave, no ano de 3978 (2310 anos à frente de seu tempo).

Ao caminharem por uma área desértica e rochosa, os astronautas/cientistas, avistam uma pequena planta. E o que eles fazem? Arrancam a solitária para futuras análises, pois ficam felizes em descobrir vida ali. Pois é! Até comentam, logo adiante, se aquela planta está (estava) ali é porque deve existir mais vida por perto. Ok. Mas, e se não encontrassem mais nada?

Este ato simbólico merece destaque, pois o filme irá tratar da questão "homem ser um parasita do local em que vive e se auto destruir"; não estar preocupado em coexistir e, na maioria das vezes, guerrear para tentar solucionar incompatibilidades.

Ressalva. É bom lembrarmos que, na década de 1960, estava em voga, entre outras questões, a Guerra Fria e o cuidado com o meio ambiente. Portanto, é natural que o filme tratasse e fizesse críticas sobre estes assuntos.

Após andarem por um longo trecho, os astronautas Taylor, Landon (Robert Gunner) e Dodge (Jeff Burton) descobrem humanos no lugar. A partir daí, macacos com aspectos humanos (falam, andam de forma ereta, utilizam armas de fogo, sabem andar a cavalo etc.) vão à caça das pessoas que ali estão, inclusive dos forasteiros. Alguns são capturados, outros morrem, levam tiros de raspão. Os prisioneiros são levados à cidade dos macacos e são postos em jaulas.

É impressionante a perfeição da maquiagem e "figurino" dos macacos. Para a época, principalmente, beira à perfeição. E, hoje, ao revermos este filme, nos deparamos com algo muito verossímil, apesar de já estarmos acostumados com os efeitos especiais atuais. Já se foram mais de 40 anos e ainda é atual.

A princípio, apenas um dos astronautas sobrevive à caçada, mas leva um tiro de raspão no pescoço e perde a voz.

O roteiro é bem elaborado, mas poderiam ter encontrado uma forma melhor de fazer com que o protagonista ficasse incapaz de se comunicar. Isto incomoda um pouco nas vezes em que vemos o esforço dele em tentar falar com os macacos. Mas, tente não pensar ou resistir a isso. Deixe a trama lhe conduzir, sem muitos questionamentos de verossimilhança narrativa.

Com essa perda de voz, torna-se angustiante o fato de não sabermos se, e quando, o astronauta irá se comunicar de forma plena. A trama vai nos causando ansiedade, à medida em que a comunicação entre eles avança. Quando, finalmente, ele consegue falar, dá um berro, um grito de alívio e xinga os macacos.

Neste momento, parece que queremos compartilhar aquela explosão contida, na torcida que o homem pudesse mostrar quem ele realmente para aquele bando de macacos imundos, como o próprio protagonista diz. Afinal, são os humanos que evoluíram dos macacos e não o contrário (mas o filme questiona que tipo de evolução é esta onde há auto destruição).

Para quem gosta de perseguições típicas de gato e rato, o filme proporciona isto. Metade dele se dedica a esta situação. Torcemos para que Taylor escape, consiga salvar sua pele e provar que pode ter um diálogo racional com os macacos. As perseguições são emocionantes e sempre tensas.

Outro aspecto a perceber são as belas imagens. Ao contrário das filmagens em vídeo, a película tem por natureza, a impressão de profundidade nos ambientes. Utilizando-se disto, vale a pena prestar um pouco mais de atenção às tomadas externas. Vejam como isto se amplia, na parte final do filme, quando os personagens estão na "Zona Proibida". São imagens belíssimas, amplas, dedicadas especialmente a nos mostrar a beleza das locações.

Por conta da boa construção narrativa e da preocupação estética, o filme flui rapidamente e, ao chegar ao fim, percebemos que a história está apenas começando. Vemos o desespero de Taylor quando da sua descoberta nos fornecendo elementos para uma continuação.

Queremos saber mais e como aquilo irá se resolver. Mas o filme acaba nisto, de forma brilhante, deixando o espectador angustiado à espera da continuação que se daria em "De Volta ao Planeta dos Macacos" (1970), de Ted Post.

(Re)veja este filme e reparem que muito do que nos é mostrado e abordado, há mais de 40 anos, continua sendo atual, emocionante e intrigante.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Anna e O Rei (1999), de Andy Tennant

Se você já viu o filme O Rei e Eu (1956), de Walter Lang poderá ter certa resistência em relação a esta refilmagem, pois a história é muito semelhante e as situações idem. Porém deixe com que este filme te leve para dentro dele, pois se tentar encaixar um filme no outro você se arriscará a travar uma batalha que não compensa e perderá o que tem de mais encantador no filme de 1999, as diferenças.

O propósito aqui não é fazer comparações entre um e outro, mas em alguns momentos será inevitável pois daremos ao leitor a oportunidade de saber se ele quer diversão ao ver um ou algo mais dramático e sisudo em outro.

Anna é convidada para ministrar aulas, a pedido do Rei, no Sião. Com a promessa de ter uma casa, tipicamente inglesa e fora do palácio, e receber um bom salário a protagonista parte com seu filho para o país oriental. Chegando lá percebe que sua vida não será fácil, pois tanto ela quanto o Rei têm temperamentos difíceis e opiniões opostas em diversos assuntos. Além do que, o choque cultural faz com que a adaptação seja mais dolorosa.

Ocorre que, ao longo do tempo Anna e o Rei vão descobrindo a essência do outro e o que poderia ser o combustível para haver um distanciamento cada vez maior transforma-se numa relação de admiração e amor entre os dois.

Os cenários são grandiosos, luxuosos e naturalista, não dando espaço para ambientes exagerados ou "mágicos". Mas, nem por isso deixam de ser encantadores.

Aqui, diferente do filme de 1956, não é um musical e não foi incluída a sequência magistral da peça de teatro "A Casa do Pai Thomas". Apesar disso, o livro tem relativa importância em um momento do filme, mas não podemos compará-la ao anterior. É cuidadoso, tanto nos diálogos quanto na direção de arte, seus figurinos etc.

Tenso do começo ao fim. Com toques de tristeza, amargura e desilusões. Dá-se atenção maior às histórias menores tornando-o mais denso em relação a O Rei e Eu. Há menos inocência por parte dos personagens, tornando-os mais cruéis ou menos utópicos.

De qualquer forma, ele surpreende fazendo com que o espectador queira descobrir o desfecho das tramas. Tanto é que o final, além de não existir no primeiro, é carregado de suspense e reviravoltas revelando o que cada um dos personagens principais têm de melhor em suas atitudes.
Anna e O Rei e O Rei e Eu são histórias iguais, mas muito diferentes. Resta saber se você, leitor, quer se divertir ou refletir. E nos dois casos, você terá esta chance.

Os Dez Mandamentos (1923), de Cecil B. DeMille





Prepare-se para ver dois belíssimos filmes em um só.

Trata-se da história de Moisés (Theodore Roberts) e dos judeus, a partir do momento em que Deus castiga os egípcios aplicando ao país castigos por ter escravizado o povo de Israel até a elaboração final dos Dez Mandamentos. Ao Moisés receber a ordem de Deus e subir na montanha sagrada descobrimos que uma senhora chamada Martha McTavish (Edythe Chapman), de família humilde, lê esta história bíblica aos seus dois filhos.

A partir deste momento, começa a narração sobre a vida desta família. O irmão mais novo, John (Richard Dix) ignora seguir os 10 Mandamentos de Deus e decide sair de casa. Em uma lanchonete, seu lanche é furtado e ele e seus amigos vão atrás da mulher que saiu correndo com o lanche. Ela, tentando se esconder, entra em uma carpintaria que, na verdade, é a casa da família de John. Ao voltar para casa, ele encontra a garota e decide ficar. Os irmãos se apaixonam por ela, mas quem acaba ficando com a garota é John. Após isto, ele e a garota saem de casa, pois continuam achando que seguir os mandamentos é bobagem.

Três anos depois John enriquece como construtor, mas seu irmão Dan (Rod La Rocque) e sua mãe continuam na mesma situação. John ganha dinheiro fazendo irregularidades nas obras, a fim de obter mais lucro em seu negócio.

Até que um dia, John chama Dan para ser o responsável da carpintaria em uma obra da igreja. Ele aceita mas, percebe que há irregularidades e tentará fazer com que John perceba que aquilo é errado e pare de agir daquele modo em sua vida.

Há diversos outros elementos no filme que tornam a trama mais interessante. Por exemplo, o amor eterno que Dan nutre por Mary Leigh (Leatrice Joy) mulher de John; o destino da mãe dos rapazes ou mesmo o destino de John, Mary e Dan.

Ao comentar sobre o "primeiro filme" reparem como os cenários do Egito são impressionantes, imensos, imponentes. Observam a cena em que Ramsés, o rei do Egito (Charles de Rochefort), aparece sentado no trono e, pela perspectiva da câmera torna-se quase tão grande quanto uma estátua que está ao fundo, distante e, ainda, vemos ao lado do monumento uma pessoa de braços abertos, mínuscula, se comparada à escultura gigante.

O número de figurantes também é outro aspecto a ser notado, pois dá verossimilhança às cenas e enriquece todo o contexto do filme, com suas roupas e movimentos.

Prestem atenção na cena de perseguição dos egípcios ao povo de Israel. Vejam a agilidade e beleza dos cavalos e bigas correndo a uma velocidade surpreendente.

Um efeito especial que se torna encantador ocorre no momento em que o Mar Morto se abre, dando passagem aos judeus e, depois se fecha para aniquilar o exército egípcio que perseguia os primeiros.

No "segundo filme", além do conjunto ser especial, é brilhante a cena em que John segura uma argola de ferro e coloca atrás da cabeça de Dan fazendo alusão a uma auréola e Dan torce a mesma argola transformando-a num 8 - mais precisamente um 8 deitado, o símbolo de infinito -e a põe nos punhos de John fazendo referência a uma algema.

Principalmente, pela segunda parte da história, o filme nos mostra como os 10 Mandamentos podem ser atualizados para o início do século XX e mais, como histórias de desrespeito e falta de fé e amor ao próximo continuam sendo atuais, quase um século depois.